Opinião: a propriedade compartilhada de barcos pode dar certo, desde que algumas regras sejam obedecidas

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Por Ricardo Aguiar Martins*

Você já ouviu falar em time-sharing? Basicamente, trata-se de uma forma de compra em que um grupo de pessoas torna-se dona de um bem, dividindo sua posse e direito de uso. Em Brasília, onde moro, esse sistema de compra é muito comum. No Lagoa Paranoá, entre lanchas e jets, há pelo menos 20 embarcações com propriedade compartilhada.

A principal vantagem desse tipo de sociedade é a possibilidade de ser dono de um barco sem ter de pagar por ele sozinho. Muita gente vê esse sistema também como uma saída para evitar as taxas de juros dos financiamentos. Sem contar que é possível ser dono de uma lancha bem maior do que conseguiria sozinho, com muito esforço financeiro. Foi o que me levou a comprar, na companhia de sete pessoas, uma lancha de 27 pés, ano 2014.

Foram oito cotas iguais, em que cada sócio-proprietário, além do uso em apenas um número particular de horas durante a semana, assumia a responsabilidade pela manutenção do barco. No discurso, tudo parecia muito bonito. Eu pagaria R$ 20 mil por uma lancha de R$ 200 mil. Na prática, porém, a teoria foi outra.

As vantagens econômicas pareciam muito boas. Mas, na prática, a teoria foi bem outra

Como isso pode dar certo, se nenhum dos “sócios” ao menos se conhece? E como confiar que cada um irá tratar bem do barco, se não há encontros entre eles? Acabei aprendendo da pior forma possível — ou seja, sentindo na carne as consequências de uma má escolha. Se comprar uma lancha sozinho já é uma tarefa complexa, comprar uma só fatia é ainda mais complicado. É preciso estar atento, para não ficar com uma batata quente nas mãos.

Você ficaria aborrecido se sua fração de barco fosse arranhada? Você se chatearia se chegasse na marina para navegar e sua fração já estivesse na água navegando ou chegasse para navegar e sua fração estivesse no reparo porque seu sócio não foi cuidadoso? Você se incomodaria se tivesse direito a apenas um sábado ou domingo no mês para navegar?

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Se respondeu “sim” para essas perguntas, você não tem perfil para compartilhar um barco. Porque esse tipo de coisa acontece com frequência. Certo dia, a rabeta aparece danificada e nenhum dos sócios se responsabiliza pelo incidente, já que nem tudo o que está escrito no contrato de propriedade compartilhada é cumprido à risca.

Compartilhar um barco pode dar certo, sim, desde que o administrador do barco esteja preparado para exercer essa tarefa. Ele tem de ter pulso firme para apontar a responsabilidade dos cotistas sempre que necessário. No nosso caso, porém, não funcionou. Pagávamos um valor relativamente alto (R$ 600 cada cotista) para manter uma pessoa que apenas administrava o tempo de uso do barco, e olhe lá. E aí, na hora de usar o barco, era aquela decepção.

Por conta disso, e das várias despesas que começaram a aparecer (quebra uma coisa, paga R$ 10 mil; quebra outra, R$ 15 mil), alguns cotistas começaram a abrir mão e abandonaram o barco. De repente, ficaram apenas quatro cotistas. Isso nos obrigou a entrar na justiça reivindicando o direito de o próprio grupo assumir a administração do uso do barco. Agora, cada um de nós cuida um pouco.

Eu recolho o dinheiro e pago a marina e o marinheiro, outro cuida da manutenção, o terceiro faz a agenda do uso da lancha, o quarto fica responsável pela documentação. Ou seja, não temos mais um administrador central. E aquele dinheiro gasto com o administrador se transformou em uma reserva de caixa, que usamos quando o barco sofre alguma avaria.

Então, fica o alerta. Quer comprar um barco com propriedade fracionada? Junte um grupo de amigos, que pode ser que dê certo, desde que o número de sócios não passe de quatro. Mais que isso, vira bagunça. O que é de todos, não é de ninguém.

*RICARDO AGUIAR MARTINS é empresário em Brasília e sua lancha de propriedade compartilhada tem como base a marina Villa Náutica.

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