Sem nó

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Considerando os termos náuticos, qualquer corda é considerada como “cabo” no momento em que é colocada a bordo de uma embarcação. Os cabos mais comuns feitos para passeios de barco são agora construídos com fibras sintéticas. A elasticidade permite absorver choques, como quando um barco ancorado sobe em ondas íngremes ou quando está atracado em um cais, por outro lado, cabos usados em velames devem ter menos ou pouquíssima elasticidade, de acordo com cada aplicação.

 

Geralmente, os cabos usados em embarcações são construídos a partir de fibras sintéticas, como a poliamida (náilon), poliéster, Kevlar, Technora, Spectra, Vectran e polipropileno. Os cabos feitos com materiais sintéticos apresentam muitas vantagens se comparadas aos de fibras naturais, incluindo resistência ao apodrecimento, resistência à tração e características de alongamento mais adequadas. Há dois tipos de construções primárias nos cabos náuticos: corda torcida de três pernas e corda trançada. Cordas usadas como cabos náuticos devem combinar resistência, flexibilidade, baixo alongamento e resistência à abrasão. Cada aplicação náutica exige qualidades específicas do cabo, o que explica a enorme variedade de cabos náuticos disponíveis.

A principais matérias primas são:

 

Cânhamo – um dos primeiros materiais a ser empregado na confecção de cordas foi o cânhamo. É a mais forte das cordas feitas em fibras naturais e, como todas as cordas em fibra natural, têm baixa resistência aos agentes climáticos. Isto pode ser parcialmente contornado embebendo a corda em alcatrão, mas este procedimento reduz sua resistência. Embora as cordas de cânhamo estejam obsoletas ainda podem ser adquiridas em lojas especializadas. Cordas de cânhamo úmidas, bem como qualquer corda feita com fibras naturais, sempre devem ser secas dependuradas, longe do solo e de paredes. Guardar a corda onde o vento possa circular através desta, preferivelmente em ambiente afastado da ação dos raios solares. A resistência a tração da corda de cânhamo, comparada a de cânhamo embebida em alcatrão e sisal é aproximadamente 100:75:80.

 

Sisal – a corda de sisal também é feita a partir de uma fibra natural e ainda é encontrada em alguns locais. Alguns proprietários de embarcações mais tradicionais ainda preferem usar o sisal em seus cabos. As cordas de sisal são também utilizadas em trabalhos artesanais e decorativos. O sisal é frequentemente mais utilizado que o cânhamo, ainda que 20% menos resistente, em parte porque pode ser obtido mais facilmente e também por ser mais resistente as intempéries.

 

Polipropileno – a corda de polipropileno multifilado é o substituto mais econômico para outros sintéticos e fibras naturais. Possui pouca resistência à abrasão, assim, deve ser protegida contra o atrito. Cordas de polipropileno podem ser trabalhadas e entrelaçadas com relativa facilidade, uma vez que apresentam um bom tato. Uma das vantagens das cordas em polipropileno é a flutuabilidade, ideal para lançamento de boias de salvamento e para esquiar. É aconselhável desfazer-se de cordas de polipropileno que apresentem cores desbotadas, uma vez que estas são muito sensíveis aos raios ultra-violeta. Tome cuidado em não confundi-lo com o poliéster, material muito superior.

Poliéster – a fribra de poliéster é mais conhecida pelo nome comercial Terylene e Dacron. A Dupont desenvolveu a alta cadeia molecular de fibra Dacron, a qual estes chamaram Tipo 52. Avanços recentes introduzidos pela Allied Signal produziram uma fibra denominada 1W70 que é 27% mais tenaz que o Dacron Tipo 52. O baixo alongamento, que pode ser sensivelmente reduzido através de tratamentos especiais durante a produção, faz com que a corda seja extremamente apropriada em aplicações que exijam um mínimo alongamento. Trançada, a corda de poliéster é de fácil manuseio e usada na grande maioria dos cabos náuticos de uma embarcação. A corda torcida de três pernas em poliéster é forte, resistente ao atrito e muito utilizada em aplicações pesadas.

 

Poliamida– a poliamida é amplamente conhecida como náilon, atualmente seu nome técnico. O náilon é suscetível à degradação por UV e agentes químicos numa taxa mais alta que a do poliéster. Suas propriedades físicas podem variar em até 100% devido à umidade. Devido a sua grande elasticidade, é utilizada quando se faz necessário absorver choques pesados. A corda se torna dura quando exposta ao excesso de sol. Deve-se tomar muito cuidado quando se faz um nó ou entrelaçamento numa corda de poliamida, em vista de sua elasticidade e de ser esta muito escorregadia, obrigando uma dobra extra ou entrelaçamento adicional a fim de torná-la segura.

 

Kevlar – esta fibra de aramida, desenvolvida pela Dupont, tem na estrutura química a chave de sua superior resistência longitudinal e baixa resistência transversal. Isto se deve principalmente às fortes ligações covalentes na direção da fibra e débeis ligações de hidrogênio na direção transversal.

 

Technora – produzida pela Teijin no Japão, apresenta melhor resistência à flexão, mas menor resistência ao UV se comparada ao Kevlar. A resistência ao UV é melhorada estrudando a fibra na cor preta.

Spectra/Dyneema – introduzida como opção ao Kevlar, esta fibra apresenta uma cadeia molecular inicial muito alta, alta resistência à ruptura, estabilidade ao UV similar ao poliéster e grande resistência à flexão. O único ponto negativo desta fibra é o seu arraste. O arraste resulta da aplicação de uma carga por um longo período de tempo e causa o crescimento da fibra em comprimento. Spectra 2000 foi introduzida como uma fibra Spectra que possui um arraste menor. A Dyneema é produzida pela DSM, uma empresa holandesa e é usada no lugar da Spectra.

 

Fibra de Carbono – esta fibra tem uma cadeia molecular extremamente alta, mas de baixa estabilidade. Cabos produzidos a partir da Fibra de carbono devem ser mantidos com muito cuidado. Esta fibra é relativamente cara e frágil, mas têm-se observado um desenvolvimento contínuo.

 

Uso de cabos em veleiros

Na maioria dos cabos náuticos para veleiros o baixo alongamento é aconselhável, porém, em algumas aplicações esta condição é mais crítica. Em geral, cabos que trabalham no punho da vela, como as escotas, sheets e guys, necessitam de baixo alongamento e alta resistência. Cabos da mestra, que são ajustados frequentemente, são menos afetados pelo alongamento. Para cabos como mainsheets, vangs, outhauls, etc., boas características de manuseio (flexibilidade) e boa resistência à abrasão são mais importantes que o baixo alongamento.

 

Uso de cabos para espias de amarração
Construção trançada em Poliamida (Náilon) é preferida para os cabos que serão manuseados com frequência, como espias de amarraçãoou para ferros de proa ou de popa. É importante que esses cabos afundem, principalmente no uso para fundear e que tenham boa resistência a abrasão. Os cabos trançados são macios, muito flexíveis e altamente resistente a torções e têm boa relação custo/benefício.

 

Como fazer os cabos durarem mais tempo?
Uma das coisas mais feias a bordo de uma embarcacação são cabos sujos e mal-tratados. Mantenha os cabos limpos com a lavagens periódicas com água doce e detergente neutro. Colocando-se o cabo em uma fronha ou saco de malha, se pode lavá-lo na máquina de lavar, porém com pouco sabão em pó. Pode-se abrandar cabos duros em uma solução de água doce e amaciante, colocando-os de molho durante uma noite, em seguida, enxaguar bem e secar longe da luz solar direta. Evitar abrasão e desgaste protengendo os cabos do atrito, com a utilização de mãos protegidas com cobertura de couro ou plástico. Guarde-os sempre em local seco e protegidos da luz solar. Atualmente, o uso de cabos pretos tem sido muito comum, já que eles não “mostram” a sujeira e marcas de ferrugem, mas desbotam e precisam ser trocados com mais frequência. Seria esta uma fórmula encontrada pelos marinheiros preguiçosos e que virou moda?

Fontes: Boating Lovers, CSL marinharia, Conquitex têxteis, Ciência Náutica Portuguesa