Iates customizados você já viu por aqui, e muitos. Mas nenhum como a sétima unidade da Schaefer 25M, de 25 metros (ou 83 pés), que o estaleiro catarinense Schaefer Yacths entregou recentemente a um cadeirante, com tudo adaptado para ele realizar todas as tarefas inerentes a um passeio náutico, incluindo gostosos mergulhos no mar, com independência e, principalmente, segurança. A construção foi feita sob encomenda, com o comprador fazendo valer o conceito de “embarcação customizada” prometido pela marca desde seu lançamento, cinco anos atrás. Pensaram que era só slogan publicitário?
Nesse processo, chamado custom, ou “feito de acordo com seu gosto”, a produção é feita quase artesanalmente. O iate ganha a cara do freguês. Neste caso, porém, em vez de uma distribuição alternativa de espaços, ou de itens diferentes da decoração, o iate Schaefer 25M foi configurado especialmente para atender às necessidades de uma pessoa com deficiência motora, um cadeirante — mas também poderia ser um idoso, um obeso ou qualquer pessoa com dificuldade de locomoção.
Não foram modificações quaisquer. Ajustes no layout e na estrutura do interior foram necessários para otimizar ao máximo a acessibilidade do cliente em todos ambientes. Com isso, o iate passou a oferecer uma série de facilidades a um portador de deficiência física: do embarque pela popa sem esforço em uma passarela bem mais larga que o convencional à oportunidade de entrar no mar, mergulhar, e depois voltar a bordo, “içado”, digamos assim, por um sistema de guinchos (um em cada bordo) instalado na popa.
Não foram modificações quaisquer. Ajustes no layout e na estrutura do interior foram necessários para otimizar ao máximo a acessibilidade do cliente em todos os ambientes
Guinchos? Sim. Mas vamos por partes, porque os ajustes — por medida de segurança e acessibilidade — são muitos. A primeira providência foi instalar um elevador na entrada do salão a bombordo, para que o proprietário possa ir direto para sua suíte ou se deslocar entre o convés principal e o inferior do iate sem necessidade de ser carregado nos braços por alguém (como acontece nos barcos convencionais), além de rampas de acesso à chamada área íntima, para ele entrar e sair com facilidade.
Da suíte, o proprietário pode acessar a cozinha, na proa, já que as portas e os corredores foram alargados, para a circulação adequada de uma cadeira. E mais: tomadas foram instaladas mais para cima, e interruptores, para baixo, de forma que ele consiga acessá-los na passagem, sem se curvar. Por sua vez, os pisos ganharam uma camada antiderrapante, para evitar acidentes. E barras de apoio de inox foram colocadas em pontos estratégicos, como banheiros, cozinha e quarto.
O iate passou a oferecer facilidades a um portador de deficiência física: de uma passarela bem mais larga na popa A um sistema de guinchos nos bordos
Só isso? Não. Por questões de funcionalidade, na cozinha os utensílios ficam próximos, facilitando todas as tarefas. E tudo, desde a mesa até o fogão, tem a altura correta. Na suíte principal, os móveis seguem algumas regras de segurança, para que o proprietário não tenha que se esticar. Já o banheiro ganhou, além de barras de apoio, vaso sanitário com assento mais alto, com espaço para que a cadeira de rodas se encaixe, e espelho inclinado para baixo. Sem contar a passarela de embarque (acesso à praça de popa), bem mais larga que o convencional.
Mas o que mais chama atenção são mesmo os guinchos colocados nos dois bordos, na popa do barco, possibilitando o embarque e desembarque de uma pessoa com deficiência, e até mesmo entrar diretamente na água e depois sair içado. De resto, a Schaefer 25M personalizada tem as mesmas elogiadíssimas qualidades da embarcação que todo mundo conhece.
A Schaefer 25M é uma 83 pés confortável, eficiente e repleta de inovações, a começar pela união de dois estilos: tem teto solar e flybridge. Como isso é possível? Simples: o flybridge é recuado em relação aos iates convencionais do gênero, e isso permite ao posto de comando interno o privilégio de ter, também, um teto solar. Além dessa surpresa — e das várias medidas de segurança e acessibilidade para uma pessoa com deficiência motora, como o cliente que encomendou este barco —, a Schaefer 25M oferece três opções de arranjo interno, entre elas uma com quatro camarotes.
fora as inovações, a Schaefer 25M tem as mesmas elogiadíssimas qualidades da embarcação que todos conhecem. uma 83 pés confortável e eficiente
A sala é tão ampla que faz plenamente jus ao jargão “salão”, usado no meio náutico. É um salão de fato e ainda incorpora tanto o posto interno de pilotagem, na frente, quanto um bar (que também atende à popa), atrás. O truque da sensação de espaço está no fato de que, além de o casco ser bem largo, tudo neste piso fica no mesmo nível, sem degraus nem divisões de ambientes. E o mobiliário, embora com grandes sofás, é enxuto, apenas com o necessário, o que também facilita a vida de um cadeirante ou qualquer pessoa com algum tipo de dificuldade de locomoção. Isso resultou num corredor central de largura excepcional e que deixa bem à mostra a madeira usada no piso, já que, por ter teto solar, não caberia o habitual carpete. Ou seja, a sala é como se fosse um deque aberto — embora fechado. E pode até molhar!
Na entrada do salão há um elevador a bombordo, para que o proprietário acesse sua suíte sem depender de auxílio. Na cozinha, há espaço suficiente para a circulação de uma cadeira
No posto de comando, o painel tem três grandes telas sensíveis ao toque, volante com regulagens, joystick para as manobras e duas poltronas — com amortecedores! — para um acompanhante curtir a navegação junto ao comandante. Quando aberto, o vidro do teto solar desliza rapidamente para baixo do piso do flybridge, num truque tão interessante quanto o painel de instrumentos do posto de comando externo, que “brota” de dentro da “máscara negra” que envolve a capota e o teto solar, dando a sensação de ser uma coisa só. De fora, ninguém diz que ali há um vidro.
Destaque também para para a laminação, de ponta. O casco e todas as peças de fibra de vidro dos barcos, como acontece em todos os modelos do estaleiro Schaefer Yachts (exceto a lancha Schaefer 303), são construídos pelo processo de infusão, que assegura alta resistência e baixo peso. A tecnologia deste iate é outro diferencial. “É quase uma cidade. Ele gera energia, trata esgoto, trata águas negras, águas cinzas, é autônomo, tem dessalinizador e está apto para longas travessias”, explica Márcio Schaefer, criador do barco e dono do estaleiro.
A sala é tão ampla que faz jus ao jargão “salão”. Não tem degraus nem divisões de ambientes. E o mobiliário, embora com grandes sofás, tem apenas o necessário. Da suíte, o proprietário tem acesso direto à cozinha
Na propulsão, a Schaefer 25M usa o sistema Volvo IPS, que permite o uso de motores menos potentes (três IPS 1200, de 900 hp cada). Em cinco anos, foram vendidas sete unidades desta 83 pés, classificada pelo fabricante como o “primeiro iate genuinamente brasileiro”, já que, com exceção do casco, todo o resto foi projetado e construído em Santa Catarina. Como tudo nela é muito especial, a Schaefer levou 11 meses para fazer a entrega, somando-se as fases de construção, acabamento e definição do projeto, de característica nobre e curiosa. Um grande toque em um grande barco.
Fotos: Norton José
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