Conheça um roteiro de belas praias entre Barra do Una e São Sebastião

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Barra do Una e Sebastião

O trecho entre Barra do Una e São Sebastião não é apenas o mais badalado do Litoral Norte de São Paulo. É, também, um dos mais bonitos do país.

Melhor, só mesmo se houvessem mais marinas e com acesso fácil pela água, para facilitar a vida dos donos de barcos. Mas, como o mundo ideal não existe, o que os frequentadores habituais de São Sebastião, no Litoral Norte de São Paulo, costumam encontrar já é bom demais.

Uma empolgante sucessão de praias completamente diferentes entre si, um punhado de ilhas diante delas, o verde da Serra do Mar logo atrás e um astral cada vez mais chique-rústico, que mistura a singeleza caiçara com o bem-bom da vida, que chega cada vez mais de São Paulo — e que tem resultado em coisas como restaurantes estrelados, pousadas invocadas, carrões importados e endinheirados andando de pés descalços, feito caiçaras.

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Com cerca de 40 praias em pouco mais de 50 quilômetros, o trecho do Litoral Norte de São Sebastião é a Angra dos Reis de São Paulo. Ao contrário das ilhas de Angra dos Reis, o litoral de São Sebastião é bem mais democrático, porque permite ser curtido também de carro, embora de barco seja bem mais fácil chegar a algumas de suas praias mais preservadas.

Mesmo assim, sobram praias e mais praias para quem rodar os poucos mais de 50 quilômetros da parte mais bonita e que realmente conta no litoral de São Sebastião: a que vai de Barra do Una à cidade propriamente dita.

É uma praia depois da outra, cada uma com seu estilo e vila — que, em alguns casos, já viraram pequenas cidades, como Juquehy e Boiçucanga. Além disso, a própria geografia das praias muda tanto que nem parece que fazem parte do mesmo litoral. Um trecho pequeno, mas absolutamente surpreendente.

As Ilhas — A Angra de São Sebastião

Apesar do nome no plural, “As Ilhas” são uma só. E se há um local para onde todos os barcos de São Sebastião e região vão é para esta linda ilha, que apesar de ser apenas uma é chamada de “As Ilhas”, no plural.

Mas não se trata de nenhuma lambança gramatical caiçara, tão comum por estas bandas. No passado, As Ilhas eram realmente duas, divididas por um filete d´água que cortava a praia. Hoje, isso não só desapareceu, unificando este naco de paraíso, como a praia cresceu.

E segue aumentando, para delírio dos visitantes, mas deixando intrigados os pesquisadores, que têm atribuído o fenômeno às correntes marítimas. Mas ainda bem que a estupenda praia principal das Ilhas só faz aumentar (há outra, menor e quase ao lado, dona de uma água tão transparente que dá a sensação de que os barcos estão flutuando no ar).

Não fosse isso, não caberiam tantos barcos ali, como geralmente acontece nos fins de semana. “As Ilhas são a nossa Praia do Dentista”, brinca um dos frequentadores assíduos, fazendo comparação com a praia mais famosa e bonita de Angra dos Reis.

Nas Ilhas, o mar é ainda mais verdinho, a areia branquinha, não há nenhuma casa à vista e, na parte de trás da principal praia, as ondas que estouram na costeira espirram para o alto, gerando um delicioso turbilhão, que vale por uma massagem em quem ficar do outro lado.

E o que é ainda melhor: a ilha fica quase colada ao continente e bem diante de Barra do Sahy, de onde partem barquinhos de caiçaras que levam os turistas até lá. Você nem precisa ter o seu próprio barco para aproveitar a ilha mais bonita do Litoral Norte paulista.

As Ilhas
As Ilhas

Barra do Una

Barra do Una tem uma praia diferente, com água doce e salgada quase ao mesmo tempo, e um visual que arrebata a gente. Ela tem um daqueles visuais que ninguém cansa de olhar: uma praia de areias branquinhas em forma de meia lua, que avança até uma restinga, onde um caprichoso rio de águas escuras, porém limpíssimas, desagua no mar, depois de correr paralelo à praia no seu trecho final, dando aos banhistas a opção de banhos de água doce ou salgada, praticamente no mesmo local.

Tem, também, ainda um quê de vila caiçara, com poucas ruas que nem chegam até a praia e, para os donos de barcos, uma posição estratégica, porque fica na metade do caminho entre Bertioga e Ilhabela e bem próximo às duas principais ilhas da região: Montão de Trigo e As Ilhas.

Por isso mesmo, abriga a principal estrutura náutica do litoral de São Sebastião, se bem que, para isso, seja preciso vencer a barra do tal caprichoso rio, o que nem sempre é fácil e proibitivo aos maiores barcos.

Além disso, Barra do Una ainda permite passeios de caiaque ou pranchas de sup rio adentro, no sentido oposto ao do mar, uma tranquilidade já rara de encontrar nas praias vizinhas e mais movimentadas. Como se tudo não bastasse, ainda tem um pôr do sol que avermelha o céu e a água. E água ali é o que não falta.

Barra do una
Barra do Una

Cambury

Não bastasse a beleza de suas duas praias, Cambury virou reduto da boa hospedagem e gastronomia melhor ainda. De tempos para cá, o local passou a rivalizar com Juquehy no quesito bem-bom da vida.

As outroras quase desertas praias siamesas de Cambury e Camburizinho, separadas apenas por um riozinho e uma espécie de ilha que não é ilha, foram ganhando pousadas transadas, casas com personalidade, gente de alto nível e, como consequência disso tudo, algumas ótimas opções de hospedagens e restaurantes.

Cambury
Cambury

Maresias

Em Maresias, o verão é sempre assim: praia cheia de dia e baladas lotadas à noite. Seja no mar de guarda-sóis do desencanado ou na pista de dança da icônica Sirena (que nunca sai de moda), a paisagem sempre embute muita gente. E gente jovem, se divertindo tanto quanto os surfistas nas ondas perfeitas de uma praia que, além de tudo, é linda ­— razão pela qual, também é curtida por todo mundo. Lá, o surf, que plantou a semente da fama desta praia nos anos 80 e que dita o estilo da vila até hoje, virou até nome de praça. De frente para o mar, é lógico.

Maresias
Maresias

Ilha dos Gatos

A ilha dos Gatos, pertinho de Boiçucanga, já deu muito o que falar. Reza a lenda que, na década de 1950, o bilionário americano Nelson Rockfeller, que chegaria a ser vice-presidente dos Estados Unidos, passou a procurar um lugar para se abrigar no caso de um eventual conflito nuclear. E escolheu — vejam só! — esta insólita ilha: a pequena Ilha dos Gatos, bem diante de Boiçucanga, que, por sua vez, na época, não passava de um povoado ignorado até pelos mapas.

A ilha, em seguida, ganhou uma gigantesca casa, que tinha até biblioteca. Mentira? Só em parte… A tal casa existiu de fato, como comprovam suas ruínas, no topo da ilha. Mas ela jamais pertenceu a Rockfeller. Pelo menos não ao famoso figurão, que jamais esteve lá. Já sua filha…

Daisy Rockfeller foi casada com o americano Richard Aldricht, que tinha negócios no Brasil e foi para ele que o arquiteto Julian Penrose construiu aquela grande casa, que, no entanto, pouco foi usada pelo casal — e jamais visitada pelo famoso sogro.

Contudo, com as mutações das versões, ele acabou virando o principal personagem de uma história que ganhou contornos ainda mais enigmáticos quando um acidente num dos desembarques na ilha custou a vida do próprio arquiteto que construiu a casa.

Reza outra lenda que, depois disso, desgostoso pela perda do amigo, a ilha teria sido abandonada pela família. Pelo menos é o que conta o único “morador” da Ilha dos Gatos, que, por sinal, jamais teve gato algum, o que contraria outra lenda, a de que ela seria infestada de felinos. “O nome certo é ‘Ilha do Gato’, por causa do seu formato”, diz Caio Rodrigues Rego, de 60 anos, que foi caseiro original da ilha e até hoje passa mais tempo nela do que em Boiçucanga, porque gosta de ficar sozinho naquele pedaço de mata cercado de água por todos os lados, que ele chama de “paraíso”.

“A ilha nada tem de misteriosa ou maldita, como o pessoal fala por aí. Pelo contrário, ela é linda”, diz. Trata-se de outra meia verdade sobre a Ilha dos Gatos, que tem apenas uma prainha com pedras quebradas, porque, no passado, elas foram dinamitadas para serem usadas na construção da tal casa — não, a ilha não chega a ser um espetáculo na natureza, mas tampouco é feia.

“O que eu mais gosto é da natureza e, como vivo nela há tanto tempo, acho que tenho direito de pleitear que seja minha”, diz Caio, que vem tentando isso há tempos, depois que uma tentativa frustrada de leilão, promovido por um procurador de Aldricht, resultou na volta da ilha à União.

Mas se o apego àquele naco de terra contar mesmo, quem tem mais direito talvez seja um dos filhos da ex-mulher de Caio (“fruto do relacionamento dela com um amigo meu, que é amigo até hoje”, explica ele, sem o menor ressentimento), que nasceu acidentalmente na ilha, durante uma visita da mãe ao ex-marido — e com isso se tornou o único cidadão conhecido que sabidamente nasceu na Ilha dos Gatos.

O menino nasceu praticamente sozinho, porque veio à luz durante a noite, sem nenhum médico por perto e com a ajuda de apenas duas meninas que acompanharam a parturiente, já que Caio, naquela noite, resolveu visitar o continente, o que faz com certa frequência. Mas isso já é outra história e, pelo menos esta, nada tem de lenda. A Ilha dos Gatos continua rendendo boas conversas.

Ilha dos Gatos
Ilha dos Gatos

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Praias Bravas

Se há um nome de praia que aparece em qualquer canto é “Brava”. Praticamente, todo município litorâneo das regiões Sul e Sudeste tem uma. Pois São Sebastião tem duas: a Brava de Boiçucanga e a Brava de Guaecá.

E ambas lindas e preservadas, justamente porque, por serem “bravas” (o que pressupõe áreas de mar não abrigado), acabaram poupadas do crescimento urbano. No caso de São Sebastião, no entanto, a razão da preservação (que torna estas duas praias ainda mais preciosas, além da natural beleza de ambas) é outra: as duas Bravas ficam em áreas de difícil acesso — pelo menos por terra.

É preciso não se importar com trilhas íngremes, estar com uma incontrolável vontade de conhecer uma praia linda ou apenas ser surfista para encarar a descida — e, depois, a subida… — até a Brava de Boiçucanga, considerada a mais bela deste trecho do litoral paulista e que, só por isso, vale o esforço.

Já quem vem pelo mar não sofre nada e ainda tem o melhor visual destas duas praias com o verde intocado da Mata Atlântica ao fundo e que, a despeito do nome temeroso, nem sempre estão impraticáveis para os barcos. Muitas vezes, nem sequer “bravas” de fato.

Praia Brava
Praia Brava

A ilha dos “Monteiros”

A Ilha Montão de Trigo não é curiosa só no nome e no formato, que lembra uma pirâmide, mas também no que ela esconde: uma comunidade de cerca de 40 pessoas, que vivem isoladas, a cerca de dez quilômetros do continente, mais ou menos na altura de Barra do Una.

São os “Monteiros”, designação que parece sobrenome mas que tem a ver “com os que vivem na ilha do Montão”. São meia dúzia de famílias, quase todas mais ou menos descendentes dos sobreviventes de um antigo naufrágio nas imediações da ilha, séculos atrás (que ninguém lá se lembra mais), e que vivem basicamente da pesca.

Até porque peixe é o que não falta nas águas ao redor da ilha. Sempre que o mar permite, alguns “monteiros” vêm vender o fruto das pescarias para os restaurantes de Juquehy e Barra do Una, mas as mulheres e as crianças da ilha (onde há até uma escolinha improvisada na sala de uma das casas) raramente saem da lá.

Nem sentem falta da vida na cidade. “A vida na ilha é tranquila, então, por que sair?”, questiona Dona Conceição, uma das mais antigas moradoras do Montão de Trigo e figura famosa na região. Embora não fique distante e seja bastante visitada pelos barcos de passeio (até por conta da água incrivelmente clara que a rodeia), raríssimos são os visitantes que desembarcam na ilha.

Por um bom motivo: não há praias e não há como fazer isso sem passar algum susto no seu “portinho”, que não passa de uma série de troncos na beira d’água, por sobre os quais os botes devem deslizar, desde que alguém em terra firme esteja a postos para segurar. Não é muito fácil. Menos para os “monteiros”, é claro.

Em compensação, a parte de dentro da ilha é bem abrigada dos ventos e muito útil quando o mar vira ou para o pernoite de veleiros, que, por causa do maior calado, não conseguem entrar em nenhuma marina deste trecho do litoral. Para eles, o Montão é sempre a solução. E uma ótima opção.

Ilha dos Monteiros
Ilha dos Monteiros

Juquehy

Juquehy é uma espécie de capital deste trecho do litoral. Mas seu crescimento não aconteceu por acaso. Surfistas, famílias, casais, adultos ou crianças. Todo mundo gosta de Juquehy.

Em parte, por coisas assim: uma deliciosa piscininha natural, formada na generosa faixa de areia clara pelo mar, que ora está verde, ora azul, mas sempre limpíssimo — e este é outro motivo. E não são os únicos.

Juquehy foi a primeira praia deste trecho do litoral a ser urbanizada, a ganhar bonitas casas, hotéis confortáveis, lojas de grifes, restaurantes de qualidade, frequentadores endinheirados e assumir ares de cidade, como uma espécie de sucursal praiana de São Paulo — embora o calçamento de sua rua principal
continue sendo uma calamidade, para desespero dos donos dos carrões importados que tentam circular por ela, nos fins de semana.

Foi, também, a primeira a sofrer com os congestionamentos — tanto de carros quanto de pessoas —, que só pioram a cada ano. Mesmo assim, não perde o seu fascínio.

Juquehy
Juquehy

São Sebastião

Uma das grandes virtudes do trecho do litoral de São Sebastião é que, nele, o mar e a estrada correm lado a lado. É muito prático — e lindo! —, especialmente para quem vem de carro, já que as praias vão desfilando diante dos olhos. Nem todas, é verdade, mas, de tempos em tempos, sempre dá para olhar para o lado e ver o azul do mar da janela.

Pena que a Rio–Santos seja uma estrada relativamente estreita, de mão dupla (embora em ótimo estado) e nem sempre com acostamentos que permitam parar o carro e descer para apreciar a paisagem. De Boracéia em diante, a estrada vai ficando cada vez mais bonita, justamente porque se aproxima do mar.

Mas o trecho mais cinematográfico é o que antecede a chegada a São Sebastião, após Toque-Toque Pequeno, onde uma serrinha cheia de curvas permite vistas deslumbrantes de praias e ilhas. Mas ali não se pode parar, muito menos estacionar (o que também impede o acesso, para quem vem de carro, a uma das praias mais lindas da região, a estupenda Calhetas, que fica ao final de um caminho que só pode ser feito a pé.

Outra mácula é que, ao longo de todo este trecho, a Rio–Santos não tem nenhum mirante. Quer dizer, tem, e bem diante do estupendo visual das Ilhas. Mas não é bem um mirante e sim o estacionamento de um restaurante. A mais cênica estrada costeira brasileira desperdiça oportunidades de ser ainda mais estupenda.

São Sebastião
São Sebastião

O maior tesouro do litoral

A ilha principal do arquipélago dos Alcatrazes é um magnífico maciço de rocha,
com paredões que descem quase na vertical até o mar e cujo ponto mais
alto passa dos 300 metros de altura – o equivalente a um hipotético prédio de 100 andares, fincado no meio de um mar intensamente azul.

Tem, também, muitas partes revestidas com o verde de árvores e palmeiras coalhadas de ninhos e filhotes, já que também abriga o maior berçário de aves marinhas da região Sudeste do país, com uma população estimada de 20 000 fragatas, atobás e outras tantas mais.

Quem se emociona com a simples visão de uma gaivota no mar custa a acreditar que possa haver tantas aves marinhas juntas, num só lugar — e tão pertinho assim do trecho mais movimentado do litoral paulista, já que o arquipélago fica a cerca de 20 milhas náuticas (ou menos de uma hora de lancha) de Barra do Una, por exemplo.

Ilha dos Alcatrazes
Ilha dos Alcatrazes

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Ilhabela