O mistério da “lesma do mar” que vem se espalhando pelo litoral brasileiro

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Glaucus atlanticus

Ao contrário do que vem sendo compartilhado em grupos de WhatsApp, o “dragão azul” não é venenoso e não tem origem asiática

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Nas últimas semanas, ocorreu uma grande disseminação de fake news nas redes sociais, sobretudo no WhatsApp, sobre a aparição do “dragão azul” (Glaucus Atlanticus), como é conhecido o pequeno molusco quem vem sido encontrado no litoral brasileiro. Segundo a ecóloga especialista em biodiversidade e filogenia de nudibrânquios de Moçambique, a brasileira Yara Tibiriçá, as notícias que vem aterrorizando a população brasileira não são verídicas.

Yara afirma que, na verdade, o Glaucus Atlanticus é um nudibrânquio (tipo de “lesma do mar”) inofensivo aos seres humanos, e o mito de serem tão perigosos provavelmente se espalhou devido à má interpretação da informação relacionada ao seu sistema de proteção contra predadores.

Esses moluscos, ao contrário da maioria dos outros nudibrânquios, são pelágicos. Ou seja, eles vivem na coluna da água e são carregados pelas correntes junto com seus alimentos hidrozoários, como caravelas portuguesas e águas vivas.

Ao se alimentar eles roubam as células urticantes de suas presas acumulando em estruturas corporais conhecidas como “ceratas”. Quando ameaçados, esses animais podem perder parte das ceratas para distrair os seus predadores, assim como as lagartixas fazem com os rabos. Apesar das ceratas possuírem uma grande quantidade de células urticantes, elas são relativamente pequenas e não chegam a queimar os seres humanos, mas obviamente não devemos ingerir esses animais.

“Durante anos de pesquisa em Moçambique, eu coloquei centenas desses animais com a minha mão de volta ao mar, e nunca tive nenhum tipo de reação alérgica ou sensação de queimação. No entanto, pessoas com alergia à água viva deve evitar tocá-los. Em fato, sempre é melhor não os molestar, eles são animais delicados e podem perder suas ceratas facilmente. Mas, se você encontrar um “encalhado” na praia, pode colocá-lo de volta ao mar usando um copo ou baldinho”, completa Yara Tibiriçá, reconhecida por sua contribuição à pesquisa de nudibrânquios no Oceano Indico e projetos de conservação, em Moçambique.

Além disso, ao contrário do que se tem se falado nas redes sociais, os dragões azuis não são asiáticos. Eles têm naturalmente uma distribuição cosmopolita, sendo encontrados desde o Indo-Pacífico até o Atlântico. No entanto, o nome científico desses animais (Glaucos atlanticus) faz referência ao primeiro oceano aonde foram descobertos – o Oceano Atlântico.

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Por que essa abundância na costa brasileira nesse momento? O motivo ainda é desconhecido, porém provavelmente está associado à abundância de alimento. Águas vivas são sensíveis à mudanças ambientais como temperatura podendo ocorrer “booms” de tempo em tempo, o que poderia ter influenciado também o aumento da população de dragões azuis.

Ao contrário dos nudibrânquios dragões azuis, caravelas portuguesas podem queimar os banhistas com seus tentáculos muito longos (muito maior do que um dragão azul), então é sempre bom tomar cuidado e ter por perto vinagre, que deve ser passado o mais rápido possível quando algum indivíduo sentir que foi queimado.

Por Felipe Toniolo, sob supervisão do  jornalista Otto Aquino      

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