Nova matéria-prima usada na fabricação de barcos de fibra de vidro promete criar barreira contra fogo

0
2156

Imagine um barco feito de fibra que não pegue fogo. É claro que esse barco ainda não existe, mas poderá estar em nossas águas muito em breve. É só o tempo de os estaleiros começarem a usar (durante a construção de seus cascos) dois produtos desenvolvidos por um grupo de jovens cientistas brasileiros (sim, o invento é nacional) para que, mesmo submetidos a uma temperatura de até 800 graus Celsius, por exemplo, os nossos iates, lanchas e veleiros não peguem fogo nem propaguem chamas. “Um dos materiais é um pó 100% anti-inflamável. O outro, um líquido retardante”, explica o técnico em química Tiago Casado Lima, integrante da equipe que desenvolveu os produtos e diretor da empresa recém-criada para comercializá-los, a Nelti Technology.

A diferença principal entre o pó (tecnicamente chamado de Resin Solid Extinguish) e o líquido (32D4) está na formulação e no mecanismo de atuação contra o fogo, sendo que o pó ainda tem o apelo da biodegradabilidade em sua formulação. O antichamas impede a ignição e cria uma barreira contra o fogo, não permitindo que nenhuma fonte de calor se propague. Por sua vez, o líquido retardante de chamas, como o nome já diz, posterga a propagação do fogo, aumentando o tempo necessário para uma evacuação e o combate ao incêndio. Além desses dois produtos, a equipe tem em seu portfólio outro material inovador: um antichamas específico para ser aplicado nos tecidos da embarcação, como estofados, carpetes, tapetes e cortinas. O produto carboniza, de maneira automática, a parte do tecido em que se encontra o foco inicial das chamas, evitando a propagação do fogo e a liberação de gases tóxicos. Os pesquisadores quebraram a cabeça até inventar as substâncias antichamas: a fase de desenvolvimento do projeto durou 12 anos.

Mas, será que esses produtos funcionam mesmo? Sua eficácia na prevenção de incêndios está sendo testada tecnicamente por um dos maiores estaleiros do país, a Intermarine Yachts, que se prepara para colocar no mercado embarcações construídas com mais esse apelo high-tech. É só uma questão de tempo para que suas lanchas e iates tenham os cascos inteiros protegidos pelo pó antichamas e pelo líquido retardante. Inicialmente, os produtos já estão sendo usados em várias peças, na quais existem maiores probabilidades da ocorrência de incêndios, e em diversas partes da embarcação. Mais adiante, o leque será ampliado, tornando a embarcação cada vez mais segura contra esse tipo de sinistro.

A boa notícia é que a matéria-prima pode ser aplicada em barcos já com alguns anos de uso, especialmente na reaplicação do gelcoat, em lugares mais vulneráveis
aos incêndios

Promete ser uma revolução na construção dos barcos. Afinal, incêndios são uma das principais causas de acidentes envolvendo barcos no Brasil e também mundo afora, ao lado das colisões. Um simples curto-circuito na fiação durante o abastecimento pode levar à perda total da embarcação pela facilidade de combustão das resinas usadas na infusão do casco, seja epóxi ou resina éster vinílica — sem contar no perigo para as pessoas a bordo. “Por causa dessas resinas, quando o barco pega fogo dificilmente consegue-se apagá-lo. São produtos altamente inflamáveis”, lembra Tiago.

Mas o problema não está apenas no fogo em si, mas principalmente nos gases tóxicos e inflamáveis emitidos durante o incêndio, que asfixiam as pessoas que estejam a bordo, além de causar um impacto ambiental considerável, pois a embarcação encontra-se em contato direto com a água. “Foi por isso que começamos a desenvolver os nossos produtos”, diz o pesquisador.

O antichamas não se destina especificamente ao setor náutico — tem aplicação em todos os segmentos que usam compostos e compósitos (materiais formados pela união de outros materiais com o objetivo de se obter um produto de melhor qualidade, como fibra de vidro, fibra de carbono e Kevlar), como aeronáutico, aeroespacial, de energia eólica, de veículos e até o de construção civil. Mas serve como uma luva à missão dos estaleiros, que é a de construir barcos cada vez melhores e seguros. “Alguém vai dizer que já existem no mercado produtos semelhantes, como a alumina tri-hidratada, porém esse mineral tem uma resistência às chamas por um período muito curto. Há também os antichamas líquidos à base de produtos bromados, clorados ou fluorados. Mas esses produtos funcionam apenas como retardantes, e não como antichamas. Nossa criação é anti-inflamável de verdade”, garante Tiago, que junto à sua equipe elevou o produto a testes extremos, superando todas as normas exigidas.

LEIA TAMBÉM
>>Minas Gerais receberá competição de jets no próximo mês
>>#tbt: DM 38, uma lancha revolucionária no design
>>Gaúcha Ana Paula Marques conquista inédito mundial paraolímpico

Como esse produto age? Na hora de fazer a laminação manual (apenas a manual), pega-se a resina (éster vinílica, poliéster ou epóxi) e acrescenta-se o pó (que é branco) na proporção de 25%. Em seguida, faz-se a homogeneização e aplica-se a mistura. O pó fica incorporado à resina. O produto também pode ser misturado ao gelcoat. Com isso, tem-se uma peça no todo antichamas, ou seja, tanto na proteção como na estrutura. Já na infusão a vácuo, o pó não passa no filtro (tecido Peel-Ply). Foi por conta disso que a equipe da Nelti Technology decidiu investir no desenvolvimento de um segundo produto, o que resultou em um líquido retardante a chamas mais potente que os convencionais, segundo Tiago. “As peças protegidas por esse produto podem ser submetidas ao fogo por até mais de dez minutos que não inflamam”, garante o pesquisador.

Na laminação por infusão, esse líquido deve ser adicionado à resina, na proporção de 10%. “Como ganho adicional, o produto reduz o tempo de infusão em até 40%. Essa rapidez, para os estaleiros, representa uma grande vantagem, pois em vez de dez linhas de infusão, por exemplo, é possível trabalhar com seis ou sete, o que representa uma redução e tanto de custos”, explica Tiago.

Alguém pode pensar que o processo de infusão fica mais rápido por conta da menor consistência da resina, que estaria mais líquida. O pesquisador diz que não. “A densidade da resina é praticamente a mesma. A aceleração se deve às nanopartículas, que faz com que a resina se alastre de forma mais rápida, atingindo áreas do tecido de fibra com maior facilidade”, explica ele.

Com o líquido incorporado à resina, os laminados fabricados pelo processo de infusão a vácuo (de escala industrial) ficam muito mais resistentes à ação do fogo, mas não totalmente imunes, uma vez que se trata de um retardante, e não de uma carga antichamas. Para que essa resistência seja ampliada, paralelamente à aplicação do 32D4, os pesquisadores propõem a adição do RSE no gelcoat. “Com isso, cria-se uma barreira 100% antichamas na superfície do casco”, garante Tiago.

Em um teste feito especialmente para NÁUTICA, Tiago acendeu um maçarico de acetileno, que produz temperatura a que incêndio algum chega. Em seguida, aplicou a chama sobre uma placa, mantendo-a direto por um período de dez minutos, em um ponto específico. A placa ficou incandescente, escureceu, emitiu uma pequena quantidade de fumaça branca, não tóxica, mas não pegou fogo — e ainda manteve sua estrutura física preservada. Esse tipo de teste tem sido proposto a vários estaleiros. Em um deles, recorda Tiago, os responsáveis disseram que já usavam um antichamas bromado, que custa muito caro e não é totalmente imune ao fogo. O problema é que, nos sanduíches de fibra de vidro com espuma de PVC ou Divinycell, o antichamas bromado aplicado na superfície, em contato com o fogo, permite atingir o núcleo. O resultado? A liberação dos gases inflamáveis, voláteis e tóxicos, que vão fazer o barco pegar fogo.

Além da capacidade de não inflamar, o aditivo, garante o fabricante, não libera fumaça tóxica, apenas ácidos fracos, basicamente nitrogênio, que é um elemento químico respirável, devido à sua capacidade de absorver as moléculas de oxigênio. Outra vantagem: o produto promete abaixar a temperatura da superfície submetida ao fogo, o que ajudaria na contenção da chama, além de anular os gases exalados pela queima das resinas (epóxi, éster vinílica e poliéster) ou pelo aquecimento do núcleo de espuma de PVC rígida (Divinycell) — este, em contato com o fogo, não inflama, mas libera o venenoso gás cianeto, entre outras substâncias tóxicas.

Outra boa notícia é que tanto o pó quanto o líquido também podem ser aplicados em barcos prontos ou com alguns anos de mar, especialmente na reaplicação do gelcoat, em lugares mais vulneráveis aos incêndios, como a sala de máquinas, os dutos da fiação elétrica e o painel de comando, criando uma barreira antichamas e tornando a vida a bordo ainda mais segura.

Receba notícias de NÁUTICA no WhatsApp. Inscreva-se!

Quer conferir mais conteúdo de NÁUTICA?
A edição deste mês já está disponível nas bancas, no nosso app
e também na Loja Virtual. Baixe agora!
App Revista Náutica
Loja Virtual
Disponível para tablets e smartphones