Real Powerboats comemora nova fase com lançamento de 60 pés no Boat Show

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Sabe aquela máxima oriental de que é na crise que se cresce? Há cinco anos, o engenheiro Paulo Thadeu Figueira Mendes aceitou o desafio de crer para ver e assumiu o controle total da Real Powerboats, estaleiro que ele já conhecia muito bem, pois passara por quase todos os setores da empresa desde que ingressou em seus quadros, em 1995, da gerência de produção à área de administração e contabilidade.

Fundado em 1986 pelo engenheiro Paulo Sérgio Renha, em sociedade com o empresário Aleimar Telles Pascoal (o nome Real vem da junção de seus nomes, “Re” de Renha e “Al” de Aleimar, falecido no ano passado), o estaleiro fluminense já produziu mais de 12 mil lanchas, na fábrica de 36 mil metros quadrados em Queimados, na região metropolitana do Rio de Janeiro, em que Renha passou a ter Paulo Thadeu como braço direito depois da saída de Aleimar da sociedade, no início dos anos 1990. Com investimentos sempre crescentes, chegou a vender 300 lanchas ao ano. “De 2004 a 2011, crescemos de 20% a 30% ao ano”, afirma o novo dono da empresa, que é engenheiro mecânico por formação, com pós-graduação em produção e qualidade.

Especialmente no Rio de Janeiro, a marca criou vínculos tão fortes que nem os estaleiros estrangeiros que desembarcaram no país conseguiram derrubá-la. Era um tempo em que os ventos sopravam a favor. Até que vieram as crises política e econômica. Com as águas turvas, as vendas do setor náutico como um todo caíam. Foi quando Paulo Renha decidiu vender a Real para o xará Paulo Thadeu, que fez uma aposta arriscada. “Estávamos em 2014 e eu acreditava que dias melhores viriam, mas o que veio mesmo foi uma forte recessão, levando a um recuo ainda maior das vendas. De 2014 a 2016, tivemos uma queda de 70%”, lembra Paulo Thadeu. “Se fosse possível enxergar um ano ou dois anos à frente, não sei se iria arriscar. Mas Deus só permite que se veja um dia de cada vez. Então, o único jeito foi respirar fundo, continuar e fazer o melhor possível”, diz o agora proprietário e presidente da Real Powerboats, a postos para uma grande virada.

Fotos: Matheus Fugazza

O estaleiro tinha um passado respeitável. “Na região de Angra dos Reis, por exemplo, calcula-se que, de cada dez lanchas, cinco são da Real. Em poucos lugares do mundo um fabricante de barcos encontra tamanha fidelidade no mercado”, afirma Paulo Thadeu, que tinha certeza de que a Real teria também um futuro. O essencial para isso a empresa já possuía: bons produtos. Assim, foi só uma questão de tempo para ele reverter o quadro e o negócio voltar a ser promissor. “Felizmente, conseguimos sair da tormenta com o barco ileso: o menor score na Serasa — pontuação de 1,27, em uma escala que vai de zero a cem —, e apenas duas ações trabalhistas, apesar das mais de duas centenas de rescisões”, comemora Paulo Thadeu.

Com o pior da crise ficando para trás, a Real começou a renovar toda a sua linha de lanchas. “Ao mesmo tempo, estamos lançando dois novos barcos, maiores e mais luxuosos: a Real 40 HT, que vai para a água em dezembro, e a Real 60 Luxury, que será apresentada no São Paulo Boat Show 2019, com preço bastante competitivo, abaixo da concorrência”, anuncia seu comandante. Assim como aconteceu em 2009, quando o estaleiro — até então especializado em barcos de comando aberto — lançou a Real Top 40, sua primeira lancha com flybridge, o objetivo agora é entrar na briga por uma nova fatia do mercado, o que abre a perspectiva de um bom crescimento ainda este ano, independentemente do desempenho da economia do país.

Como foi possível à empresa se reinventar, em meio à retração do mercado e à queda das vendas? “Há muitos anos, já era eu quem dirigia a fábrica. O Paulo Renha tomava conta da parte de projetos e de estratégia. Então, o estaleiro não precisou passar por nenhuma mudança radical quando eu assumi o comando”, explica Thadeu. O fundamental, segundo ele, foi a empresa ter iniciado uma administração participativa, a partir de 2014, com o comprometimento de seus funcionários e dos parceiros comerciais (leia-se Mercury Marine e Barracuda Advanced Composites, de Jorge Nasseh, na área de infusão; e Ana Claudia Moreno, na arquitetura e decoração, entre outros).

A única maneira de passar pelas dificuldades é com atitudes criativas. “A crise exige respostas rápidas, com a otimização de custos. E isso foi feito. Chegamos a ter 28 modelos diferentes de barcos, o que exigia um capital de giro absurdo. Reduzimos a linha de série para apenas seis modelos, passando a construir os demais sob encomenda. E modernizamos todos. Detalhe: sem fazer novos moldes, apenas mexendo neles parcialmente, o que representa uma grande economia”, conta ele.

Entre as lanchas que passaram por uma modernização estão a Real Top 415 (antiga Real Top 40, grande sucesso de vendas) e a Real Top 525, desenhada pelo festejado projetista Tony Castro, com decoração interior de Ana Claudia Moreno. Houve cortes de mão de obra? Sim. “Infelizmente, tivemos de demitir 50 de 150 funcionários que haviam ficado depois das rescisões anteriores, e reduzir a jornada de trabalho. Não dá para cortar custos com matéria-prima, isto é, demitir a fibra, o motor…”, pondera Paulo Thadeu. “Mas quem ficou nos deu ideias para reduzir gastos que foram importantes para a saúde financeira da empresa, como racionalizar o uso do compressor, por exemplo”, lembra ele.

Cinco anos depois de assumir o controle, a Real começou a retomada rumo ao patamar pré-crise. “Nossas margens de lucro ainda estão muito apertadas. Mas já estamos com 150 funcionários novamente, porque foi necessário contratar para desenvolver os novos projetos”, explica Thadeu, referindo-se às lanchas Real 60 Luxury, que será o maior barco do estaleiro, e Real 40 HT Luxury, de acabamento refinado, com teto solar, o chamado hard top, programada para ir à água no mês de dezembro, já com quatro unidades vendidas.
Com a linha Luxury, mais sofisticada, a Real Powerboats consolida uma mudança de rumo iniciada há 15 anos, com o lançamento das lanchas da linha Class (caracterizada pelo bom acabamento e alguns opcionais interessantes, como revestimento de madeira teca). Antes dela, o estaleiro sempre se dedicou a construir barcos espaçosos e bons de mar, porém com acabamento espartano. A linha Class (plenamente aprovada pelos fãs da marca) mudou esse perfil. Agora, a Luxury tenta elevar ainda mais esse status. Segundo Paulo Thadeu, serão barcos sofisticados e elegantes, mas sem abrir mão da performance agressiva de sempre.

Nos novos barcos, o comandante do estaleiro tenta aplicar soluções simples e, ao mesmo tempo, inovadoras para o dia a dia de um navegador, pois fim de semana sim, fim de semana também, ele vai para Angra dos Reis, onde mantém uma Real Top 365, seu laboratório de testes. Por exemplo: a nova Real 60 Luxury terá oito tomadas usb no cockpit. Terá também uma petisqueira (uma pequena geleira rasa para ser usada como uma mesa de frios). E ainda uma “champanheira”, que é uma geleira com fundo mais alto com encaixe para garrafas abertas de champanhe ou prosecco — não tem perigo de entornar dentro do gelo. Sem contar a mesa do cockpit, com assentos para dez pessoas. “Como eu uso muito as nossas lanchas, consigo avaliar as coisas que a gente sente falta a bordo. E aplico nos novos modelos”, garante.

Outra preocupação é a de manter uma boa relação com o cliente, necessária para cativar a sua fidelidade. “Quase todas as nossas vendas, hoje, são feitas diretamente da fábrica. Temos poucos revendedores. Tiramos muitas revendas por causa do atendimento no pós-venda. Antigamente, o cliente comprava o casco, a revenda colocava o motor e os eletrônicos. Mas na hora da assistência técnica, a revenda pulava fora. E o nome da fábrica ficava comprometido. Agora, não. A Real entrega o barco completo e oferece assistência técnica em tudo. Com isso, somos o único ou um dos poucos estaleiros com reclamação zero”, afirma Paulo Thadeu.

Além disso, para dar suporte de 100% a seu cliente, o estaleiro criou um serviço especial chamado Real Service, em que oferece reforma e manutenção dentro da própria fábrica, para barcos de todos os modelos da marca, especialmente os mais antigos, que são devolvidos novamente em estado de zero, como quando saiu da fábrica, com direito a peças originais. “Se você quiser fazer uma manutenção de primeira, ninguém melhor do que a própria Real”, defende Paulo Thadeu, que criou o serviço atendendo ao apelo dos próprios clientes da Real, que reclamavam a falta de manutenção especializada.

Os serviços são divididos em dois tipos: retrofit e reforma com revitalização. “O objetivo da Real não é o lucro e sim oferecer o melhor pós-venda aos clientes. Em vez de procurar um mecânico, tapeceiro ou eletricista de fundo de quintal, ele procura a Real. Daí os serviços serem oferecidos a baixo custo”, explica o proprietário do estaleiro. Outra iniciativa de aproximação com o cliente é um encontro de confraternização aberto a proprietários de embarcações da marca, chamado de Real Party Trip. “Serão três encontros por ano. O primeiro foi realizado em Paraty e atraiu 28 barcos. Depois do São Paulo Boat Show vem o próximo. É um passeio com festa, para estimular o uso do barco e quebrar o medo de fazer travessias um pouco mais longas, como ir de Angra ao Rio de Janeiro, por exemplo”, conta Paulo Thadeu. E ainda tem a Troca Certa, modalidade de compra em que o estaleiro garante a recompra do barco (como entrada de um novo) com depreciação de 15%, um ano depois, e 10% nos anos subsequentes. “É a menor depreciação que existe no mercado em se tratando de bens de consumo“, avalia Paulo Thadeu.

Sua próxima ação tem uma pitada de ousadia: montar uma espécie de boutique náutica no estacionamento de um shopping na Barra, no Rio de Janeiro. Será uma espécie de showroom para vender barcos da Real. No primeiro momento, haverá uma 33 pés em exposição. Depois, será a vez da nova 40 HT Luxury. Além disso, a Real participou do São Paulo Boat Show 2019, com o lançamento da Real 60 Luxury. Por sinal, é o único estaleiro que participou ininterruptamente de todos os salões náuticos realizados no Brasil, somados o São Paulo e o Rio Boat Show. Com iniciativas como essa, Paulo Thadeu, que é um negociador de habilidade inegável, vai vendendo seu peixe, ou melhor, seus sempre eficientes e cada vez mais belos barcos.

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