Náutica traz 17 respostas para suas dúvidas sobre ar-condicionado no barco. Fique por dentro!

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Durante o verão, quando o calor ultrapassa, fácil, fácil, a casa dos 30 graus, a temperatura dentro da cabine de um barco pode bater — mais fácil ainda — nos 45 graus ou mais. Vira uma sauna. E torna-se inabitável, o que acaba com as vantagens de se ter um barco cabinado. A solução é ter um eficiente sistema de ventilação ou — muito melhor do que isso — um ar refrigerado a bordo. Até porque, além de deixar o ar muito mais agradável, este equipamento é, também, a melhor maneira de desumidificar o interior da cabine.

Contudo, muitas vezes, aquele aparelho novinho em folha para de funcionar ainda no período de garantia. E não por um defeito de fábrica, mas por falha do técnico, que não seguiu à risca as instruções do fabricante na hora da instalação. Pelo menos 95% dos casos de chamado para atendimento com relação a produtos e acessórios nas embarcações, ainda no período de garantia, estão relacionados a problemas de instalação. A informação é de Sergio Monzillo, gerente de vendas da multinacional Webasto, que produz sistemas de refrigeração para barcos, além de geladeiras, ice makers e aquecedores de ar e água.

Um dos aparelhos “campeões” de reclamações sobre mau funcionamento são os de ar-condicionado — até porque há cada vez mais unidades deles presentes nas embarcações que singram nossas águas tropicais. Um dos problemas, garante Sergio, passa pelos estaleiros, que precisam se esforçar mais para treinar pessoal e supervisionar os serviços. Mas você, dono de barco, também pode contribuir para a melhoria da qualidade nas instalações, para fazer bom uso dos equipamentos e estender sua vida útil. Saiba como, na opinião deste especialista no assunto.

Quais problemas um aparelho de ar-condicionado náutico pode apresentar?
São problemas relacionados aos seus ciclos de trabalho. Normalmente, um aparelvvvho de ar-condicionado náutico, que é diferente do doméstico, tem quatro ciclos: de água salgada (que faz a refrigeração da condensadora), de gás (gerado pelo próprio aparelho), de ar (que entra e sai do equipamento) e de energia elétrica (que é a sua alimentação). No caso do aparelho do tipo chiller, há ainda um outro ciclo, que é o de água gelada. Então, o primeiro passo é identificar em que ciclo está ocorrendo o problema e, a partir daí, ver se trata de uma pane natural, por causa de um defeito de fábrica, ou de uma pane provocada, no caso, por má instalação. Se o equipamento vem com defeito de fábrica, o problema aparece logo de cara. Então, se aparecer depois, provavelmente, será por falha na instalação.

O que caracteriza a má instalação do aparelho?
Ela acontece porque não foram seguidos alguns detalhes pedidos pelo fabricante. Você pode ter desde o mau dimensionamento da unidade, que não é suficiente para climatizar o ambiente, até o subdimensionamento da bomba d’água ou, ainda, da tubulação que conduz a água — por exemplo, por causa do diâmetro da mangueira, que não acompanha o produto e pode ser mal escolhida pelo instalador, ou de um cotovelo que o técnico coloca ali e limita o fluxo. E mesmo o sensor do produto, se estiver instalado numa superfície fria, vai levar ao mau funcionamento, refrigerando o ambiente menos do que deveria. Um bom instalador deve estar atento a tudo isso e, ainda, a outros aspectos técnicos.

Se o sensor do ar condicionado estiver instalado numa superfície fria, vai refrigerar menos do que deveria

Além de não se seguir as orientações dos fabricantes, o que mais tem prejudicado as instalações?
O alto índice de rotatividade de funcionários nos estaleiros é uma das causas, porque impede a formação de uma mão de obra mais qualificada. Outro problema diz respeito aos manuais, que, muitas vezes, estão em inglês, dificultando o entendimento. Mas, mesmo quando estão em português — como é o caso dos manuais da Webasto —, o problema pode ocorrer se o instalador tiver “vícios de mercado” (“Ah, já instalo ar-condicionado há 20 anos, sei como se faz…”). De uma forma geral, falta treinamento e supervisão, já que o correto seria os fornecedores, ou seja, os estaleiros, revisarem a instalação. É o chamado comissionamento, que os estaleiros deveriam ter como prática. Mas, como muitas vezes isso envolve custo, esse procedimento é deixado de lado.

Os estaleiros, então, precisam dedicar uma atenção maior a essa questão?
Sim, seria interessante que isso acontecesse, porque eles sofrem duplamente, com custos de serviços de pós-venda e com o desgaste da marca, que, por sua vez, tem tudo a ver com a fidelização do cliente. Porque o cliente, quando compra um barco, está comprando um prazer e, se ele perder o tempo desse prazer fazendo ajustes no barco, isso vai potencializar a frustração dele. Se os estaleiros dedicarem uma atenção maior a essa questão, como já acontece com a entrega técnica dos motores, por exemplo, a satisfação do proprietário da embarcação vai aumentar também. No fim das contas, quem sairá ganhando será o mercado como um todo.

De que forma o dono de barco pode se precaver contra problemas relacionados à instalação do ar-condicionado e de outros equipamentos?
Já na hora da compra, ele deve verificar se os sistemas presentes na embarcação — não só de ar-condicionado, mas também de eletrônicos, som, gerador etc. — que deseja adquirir foram comissionados e, também, se os instaladores daquele estaleiro são treinados e certificados pelos fabricantes dos respectivos equipamentos. Além disso, na entrega do barco, é preciso checar se os aparelhos estão funcionando corretamente, o que significa que foram aplicados de acordo com as diretrizes dos fabricantes. Em caso de eventuais defeitos, esse dono de barco já estará muito mais coberto pela garantia que aquele que não tem essa preocupação.

Existem sistemas de ar-condicionado mais adequados a determinados tipos de barcos?
Sim. Para embarcações com poucos camarotes e/ou barcos profissionais, onde não se deseja depender de uma única central, os self containeds (unidades autônomas) são os sistemas mais indicados, pois possuem instalação e reposição mais simples. Para uma embarcação com quatro ou mais camarotes, há também outros sistemas que ocupam menos espaço e são mais adequados. De forma geral, a escolha do sistema depende de diversos fatores, como expectativa do proprietário, tamanho do barco, volume interno a ser refrigerado, região de navegação, período de uso do barco e capacidade de energia disponibilizada pelo gerador.

De forma geral, qual é a melhor lugar para a grelha do ar-condicionado?
As saídas de ar devem ser posicionadas, de preferência, no ponto mais alto da cabine, para o resfriamento ideal de todo o ambiente. No salão de embarcações maiores, aquela “cortina de ar” que fica bem na porta, junto à praça de popa integrada, psicologicamente funciona muito bem. No entanto, é no para-brisa, onde há incidência direta de luminosidade e do calor do sol, que as grelhas devem ser posicionadas. Ali, elas vão resfriar o vidro em primeiro lugar, sendo mais eficientes.

Se ligar o ar só na hora do passeio, fatalmente, a sensação térmica a bordo demorará mais tempo para ficar agradável

É possível diminuir o ruído das máquinas do ar-condicionado?
Existem várias maneiras de manter o menor nível de ruído possível. Em primeiro lugar, as saídas de ar nas cabines devem atender às recomendações de tamanho mínimo, a fim de garantir o maior fluxo de ar mediante o menor ruído. Por isso, é recomendada também a instalação de uma caixa de transição, a fim de garantir que o ar seja soprado de forma uniforme pela grelha. Graças às regulagens de nossos blowers e air handlers, a velocidade do ventilador também é ajustável individualmente. No entanto, o desempenho de refrigeração será menor quando o fluxo de ar for reduzido.

Equipamentos que não são instalados durante a montagem do barco, e sim depois, tendem a dar mais problema?
Não necessariamente, porque uma boa instalação independe do momento em que é feita — isto é, desde que o construtor tenha previsto um espaço adequado, tanto em termos de dimensão quanto
de acesso, para o ar-condicionado. Além disso,
o instalador precisa seguir as orientações
do fabricante, passo a passo.

E como o uso correto dos produtos, no dia a dia, pode prolongar a durabilidade de uma instalação bem-feita?
Uma boa instalação deve levar em conta o lugar onde é feita, também para facilitar o acesso do usuário. Tem que ser um local que permita verificar os componentes do produto, como o filtro do ar, para que eles possam ser facilmente checados e trocados.
É preciso ter certeza também de que a energia a bordo não sofra grandes variações
(um problema comum nas marinas…), daí ser melhor depender de um gerador, que, claro, deve estar instalado adequadamente, e o proprietário da embarcação precisa ficar atento a isso. Muitas vezes, se o nível do frio produzido pelo ar-condicionado está insatisfatório, pode ser por causa da luminosidade, e a simples colocação de uma cortina resolve o problema. Tem também a questão do mobiliário, que influencia tanto pela quantidade de calor absorvido quanto na própria circulação do ar. Daí a necessidade de uma instalação bem-feita levar em conta esses vários fatores e o usuário, por sua vez, saber lidar com eles também.

Mas a má operação, sem respeito às recomendações dos fabricantes, também não contribui para a ocorrência de problemas?
Sim. Contudo, partindo do princípio que o ar-condicionado é um equipamento mundial, sua operação não é tão complexa assim. Todo mundo, em tese, deve saber como ele funciona — se bem que a leitura do manual por parte do usuário, que é essencial, nem sempre acontece. Sabemos que o Brasil é um país de altas temperaturas, tanto de ar quanto de água, então o ar-condicionado ganha uma importância ainda maior. Enquanto, na Europa, 10 °C de diferença entre a temperatura ambiente e o ambiente com ar-condicionado é considerada confortável, nas Américas e regiões tropicais, a diferença considerada confortável é de 15 °C. Todo mundo quer usufruir os benefícios do ar-condicionado, mas, para isso, é preciso não cometer alguns erros, de fato.

E quais são os erros mais comuns verificados na operação do ar-condicionado?
O período mais crítico para o aparelho é o chamado cool down, isto é, o tempo que demora para ir da temperatura ambiente à de resfriamento total do ambiente que se quer climatizar. Esse período dura entre 45 e 60 minutos. Se o ar-condicionado só é ligado na hora do passeio, fatalmente, a sensação térmica a bordo vai demorar mais para ficar agradável (que, para nós, seria em torno de 21 a 23 ºC). Então, principalmente em um dia de bastante calor, o ideal é ligar o ar cerca de uma hora antes do passeio.

Muitas vezes, a simples colocação de uma cortina no para-brisa aumenta o efeito do ar condicionado. E poucos fazem isso

O consumo de energia de um ar condicionado é realmente alto?
Sim. Embora um ar refrigerado tenha potência bem menor do que, por exemplo, um simples micro-ondas, seu gasto de energia é bem alto, porque ele trabalha por longos períodos — e não apenas minutinhos. Portanto, se você pretende usar o equipamento durante a navegação (e não apenas parado no píer, quando pode usar a tomada elétrica da marina), terá de instalar um gerador. Ligá-lo diretamente nas baterias irá descarregá-las com extrema rapidez.

Qual a diferença entre um aparelho doméstico e um marítimo?
A principal está na forma de esfriar o gás comprimido. Enquanto o doméstico usa o ar ambiente, no equipamento para uso marítimo emprega-se a própria água na qual o barco navega, que tem capacidade de resfriamento maior e possibilita um condensador mais compacto. Mas o princípio de operação é o mesmo, nos dois aparelhos. Uma embarcação é um ambiente crítico em diversos sentidos: há limitações de espaço, de energia disponível, de peso, além de alta sensibilidade a ruídos e vibrações, incidência direta de sol, alta taxa de umidade relativa do ar e salinidade extrema. Ainda assim, conta com grandes espaços com luz natural para serem resfriados, como os salões, com seus para-brisas gigantes e janelas generosas para um melhor aproveitamento da vista privilegiada. Situação bem diferente da encontrada em uma casa, onde as limitações são bem menores, os isolamentos (como telhados, forros e paredes maciças) são mais eficientes e não há movimentação nem transmissão de vibrações externas (como as geradas pelos motores). Por todas essas diferenças, os equipamentos de ar-condicionado para barcos precisam trazer melhores soluções e serem mais bem desenvolvidos. A diferença principal é certamente o uso da água para resfriamento da condensadora, enquanto em um split doméstico, por exemplo, é utilizado o ar. Como a água é um excelente condutor térmico — muito mais eficiente que o ar —, a condensadora pode ter suas dimensões reduzidas e, ainda que o equipamento seja menor como um todo e consuma menos energia, sua performance é proporcionalmente muito mais eficiente. Além disso, toda a unidade precisa ser bastante resistente contra a corrosão devido a salinidade extrema, além de muito bem protegida da umidade em seus comandos eletrônicos e ligações elétricas.
Para finalizar, como geralmente os barcos de lazer são utilizados em dias de sol, ar condicionado tem deixado de ser um artigo de luxo para se tornar uma necessidade em embarcações cabinadas de médio porte para cima.

Ainda tem muita gente que insiste em instalar um ar-condicionado doméstico no barco?
Sim, mas é um número que vem caindo, em função do próprio amadurecimento do mercado. É preciso lembrar que o ambiente marítimo, especialmente, é muito mais agressivo que o doméstico. Existe a ação contundente da maresia, mas também a vibração causada pelo balanço das águas, a restrição de espaço a bordo. Então, nos barcos só devem ser instalados produtos feitos para barcos. Até porque equipamentos domésticos, em geral, consomem mais energia, são mais pesados e não são feitos para suportar a maresia.

Porém, mesmo com o equipamento corretamente instalado, convém ao dono de barco ficar sempre atento, se não quiser ter problemas?
Sim. Quando a indústria náutica estiver funcionando no mesmo nível da automobilística, talvez ele não precise. Mas isso é algo que o tempo e a escala do mercado irão proporcionar. Por enquanto, o ideal é que não só o dono de barco, como todos os agentes do mercado — principalmente os fabricantes e estaleiros —, estejam atentos, melhorando cada vez mais a qualidade das embarcações. Precisamos quebrar o paradigma de que “barcos dão problemas”. Isso traz uma péssima imagem para o nosso mercado.

Como estimar a potência do ar condicionado necessária para um barco?
O ideal é que o cálculo seja feito por um engenheiro, pois cada barco é um caso diferente. Há barcos com poucas vigias, outros com muitos vidros. Mas algumas fórmulas podem ajudar a calcular a quantidade de BTU (unidade térmica relacionada à potência do ar-condicionado) necessária ao compartimento a ser refrigerado. Em todo caso, usar um equipamento com potência menor significa mantê-lo ligado por mais tempo e, mesmo assim, a temperatura do ar não esfriará o suficiente. Por outro lado, uma capacidade muito maior que a necessária também é ruim, porque o aparelho ficará em um liga e desliga constante, além de criar áreas excessivamente frias na cabine. Para isso, é preciso, antes, calcular o volume desse espaço, ou seja, anote as maiores dimensões relativas a largura, profundidade e altura do cômodo e, então, multiplique-as entre si para se obter o metro cúbico. Em lanchas e veleiros que navegam na região sudeste, podemos considerar 650 BTUs para cada m3 de volume de cabine. E para cada pessoa a bordo, acrescente 300 BTUs. Exemplo: para uma cabine de proa de uma lancha de 31 pés, com 1,80 m de altura, 3 m de boca e quatro pessoas geralmente a bordo, o volume seria de 13,5 m3 e o aparelho, portanto, deveria ter uma capacidade próxima de 10 mil BTUs. A Webasto trabalha com uma tabela que prevê taxas específicas para cada ambiente. No caso de um camarote no deque inferior, provido apenas por vigias, esse número é 400, que, multiplicado pelo resultado anterior, será igual a 5 400. Mas ainda é preciso fazer uma correção, levando-se em conta o volume dos móveis presentes no ambiente — daí, também, a importância de um técnico qualificado.

Ar-condicionado é um dos campeões de reclamações de mau funcionamento. E a culpa, acredite, não é do aparelho, mas quase sempre de quem o instala, garante o especialista

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