NÁUTICA Live revela: com a reabertura da economia, o setor náutico será um dos primeiros a reagir

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O pior já passou? Qual foi o tamanho do estrago produzido pelo coronavírus? Para quem sofre os impactos econômicos, como o desemprego, até para quem acorda sentindo que os dias são todos iguais, fica uma pergunta que não sai da cabeça: quando a pandemia de Covid-19 irá embora e tudo voltará a ser como era antes?

Promovida pelo Grupo Náutica, a 5ª NÁUTICA Live, realizada nesta quinta-feira, 28 de maio, abordou o tema “A reação do mercado náutico internacional pós pandemia”. Durante o encontro virtual, mediado pela jornalista Millena Machado, com coordenação do presidente do Grupo Náutica, Ernani Paciornik, os executivos Thibaud Maudet (do grupo francês Beneteau), Francesco Caputo (Azimut Yachts, da Itália/Brasil); Henrique Rosa (BRP/Sea Doo, do Canadá); e Reinaldo Maykot (Brunswick, dos Estados Unidos) — que concentram uma fatia enorme do PIB náutico mundial — revelaram que, apesar de o mar ainda não ser de almirante, o coronavírus não paralisou o setor náutico, a não ser nos primeiros dias da pandemia. E mais: ancorados em números, eles garantem que, quando a reabertura da economia acontecer, o setor náutico será um dos primeiros a reagir.

Em fevereiro deste ano, observando pelo noticiário as ruas vazias, por conta do lockdown, e os altos números de mortes em países como Itália, França e Espanha, o cenário era de completa desolação. Três meses depois, entretanto, o “mundo girou”. Os países europeus e até os Estados Unidos começaram, com cautela, a relaxar as medidas de confinamento e a economia, ainda que longe de voltar ao normal, já iniciou uma reação.

À conversa ao vivo, que durou um pouco mais de 2 horas e está disponível no YouTube, acrescenta-se a participação de Martin Bjuve, presidente da Volvo Penta Américas, que gravou um vídeo em que revela como a empresa (maior fabricante mundial de motores a diesel para embarcações de lazer) vem enfrentando esse cenário de pandemia.

Aqui, você tem um resumo do que foi dito por eles.

Os planos para a divisão marinha da BRP continuam firmes e fortes, com projetos muito interessantes

Henrique Rosa, do grupo canadense BRP/Sea-Doo, iniciou sua participação na live falando sobre a notícia-bomba revelada por NÁUTICA nesta quarta-feira, 27 de maio: o fim da fabricação dos motores Evinrude. “A BRP está reorientando seus negócios marítimos globais com a ideia de acelerar o crescimento de suas marcas de barcos, adquiridas nos últimos anos, aumentar o foco e os investimentos em novas tecnologias e trazer para o mercado algo diferente e inovador”, disse ele, salientando que o objetivo da empresa é oferecer aos consumidores uma experiência única na água, não somente um motor de popa. Henrique assegurou, ainda, que a BRP continuará com disponibilidade de peças e serviços para os clientes Evinrude, honrando todas as garantias.

De acordo com executivo da BRP/Sea-Doo, a mudança já vinha tomando forma há algum tempo, mas foi acelerada pela pandemia do coronavírus. “Não é novidade que a companhia já estava reorientando e focando mais em novas tecnologias, em propostas de valor que são únicas. Isso já tinha sido anunciado. A Covid-19 apenas acelerou algumas decisões, alguns processos que já estavam acontecendo”. Henrique anunciou dois novos projetos para um futuro bem próximo. “A BRP tem crescido demais nos últimos anos (…). A Sea-Doo detém 55% do mercado global e a gente não vai deixar o ramo marinho, muito pelo contrário! Os planos para a nossa divisão marinha continuam firmes e fortes, com projetos muito interessantes”.

O primeiro deles, o Projeto Ghost, traz um novo sistema de propulsão, que não ocupa toda a área detrás do barco. “Um motor de popa, hoje em dia, ocupa muito espaço útil, tanto física como visualmente. A ideia é remover grande parte desse volume e colocar isso pra baixo da plataforma, na popa. Assim, o visual fica muito melhor, aproveita-se melhor o espaço, e o cliente desfruta de  uma melhorar a experiência de navegação”. Outra novidade é o Projeto M, ao qual Henrique se refere como “o Spark dos pontoons”, numa referência ao jet da Sea-Doo que revolucionou a indústria, multiplicando as nossas vendas da BRP em todas as partes do mundo. “A nossa ideia é fazer algo similar com o Projeto M, trazendo um pontoon inovador em desenho, tecnologia e preço, que será ainda mais acessível”.

Henrique Rosa também destacou o jet como porta de entrada ao mundo náutico. “Até quase 40% dos nossos clientes são consumidores novos, e 30% já têm barco”. Quanto ao mercado brasileiro, ele disse que é bastante importante para a BRP, situando-o entre os maiores da marca no mundo. “Nove em cada 10 jets vendidos no Brasil são da nossa marca”, afirmou. E apontou a razões para isso. “A contínua inovação, com a introdução em ritmo acelerado de de novos veículos. Basta lembrar que a Sea-Doo atualizou 80% dos nossos modelos nos últimos dois anos”. O executivo da BRP aproveitou para ressaltar a importância de facilitar o acesso das pessoas à água, promovendo, por consequência, o amor pelos barcos, como acontece em tantos outros países. “Se você não nutrir essa paixão das pessoas pela água, pela navegação, pelo mar, você não vai ter um mercado viável no futuro”, avaliou.

A situação é nova, desafiadora, mas muito mais favorável do que temíamos

Reinaldo Maykot, do centenário Grupo Brunswick, que produz lanchas das marcas Sea Ray, Bayliner e Boston Whaler, entre outras, além dos motores Mercury Marine, comemorou o fato de as empresas do grupo já terem começado a navegar novamente, depois de um curto momento de paralisação. “A situação é nova, desafiadora. Depois de dois meses, aprendemos muito sobre ela. Hoje, vemos que o quadro é muito mais favorável do que temíamos. O mercado está muito mais aquecido do que poderíamos imaginar”, disse.

Para traduzir em números o que esse cenário representa, ele revelou que toda a produção da linha de lanchas Boston Whaler, que ele comanda, já está vendida até setembro. “Estamos com um bom problema: a menor das filas de espera para os 23 modelos Boston Whaler é para outubro desse ano somente”. Como explicar um quadro desses, num momento de tanta incerteza? “O consumidor passou a ver os barcos como um lugar seguro para fugir da pandemia. E, com mais tempo para pesquisar, e para navegar, descobriu que trocar de barco podia ser um bom negócio. Aproveitamos essa janela de oportunidades e conquistamos novos consumidores”, conta Maykot, que aproveitou para traçar um perfil desses clientes.

“Existem três tipos de consumidor. O primeiro é a pessoa que tem um barco a três ou quatros ano e que estava pensando em trocá-lo. O segundo, é aquele dono de barco que navega muito pouco, umas horas durante o fim de semana, para levar a família para almoçar, e que com a pandemia descobriu que precisava de um barco maior, cabinado, para passar mais tempo a bordo. O terceiro é um grupo novo, que está descobrindo o mar através dos chamados boats clubs, que dividem o uso do barco, e que está aquecendo o mercado”.

O executivo, que comandou as ações da Brunswick quando o grupo operou no Brasil, entre os anos 2012 e 2017, aproveitou para explicar porque decidiu deixar o mercado náutico brasileiro. “Fomos para o Brasil no momento errado, quando a economia do país começou a entrar em recessão. A demanda abaixo das expectativas não permitiu que nosso modelo de negócio parasse em pé. Ao mesmo tempo, tínhamos uma demanda crescente nos Estados Unidos. Por isso, decidimos parar a produção de barcos. Hoje, o marcado brasileiro é mais importante para nós na área de motores”, afirmou.

Muitas pessoas estão vendo o barco como a melhor atividade

Thibaud Maudet, do grupo Beneteau, da França, que produz 12 marcas e mais de 200 modelos de embarcações, entre a vela e a motor, chamou atenção de quem está a procura de um barco para as oportunidades decorrentes da atual situação de crise. “Muitas fábricas pararam durante este período e estão oferecendo boas oportunidades, com incentivos adicionais para terminar seus estoques”, disse ele, apontando como exemplo os mercados da Europa e dos Estados Unidos, especialmente na Flórida, onde as pessoas já estão voltando a navegar com tudo.

“No começo, o mercado estava muito parado, porque muitos clientes investem na Bolsa (de Valores), ou têm grandes negócios e, quando a Bolsa cai entre 30% e, 40% em uma semana, obviamente, essas pessoas não vão investir seu dinheiro na compra de barcos grandes. Mas, agora que a Bolsa voltou a se estabilizar, que voltou a crescer tanto nos Estados Unidos como em muitos países da Europa, estamos vendo novamente a venda de barcos grandes decolar”, relatou Thibaud, que reforçou, ainda, a visão de muitos de seus colegas, que perceberam a vida náutica como uma das saídas durante a pandemia. “Muitas pessoas estão vendo o barco como a melhor atividade, já que ninguém está podendo viajar, e isso é uma coisa em comum que temos entre os barcos maiores e os pequenos”.

O executivo francês revelou também as ações desenvolvidas pelo grupo Beneteau nos últimos anos para a expansão da marca e os investimentos em empresas digitais, para atender melhor às necessidades dos clientes na compra e aluguel de barcos, entre outros serviços, principalmente neste período crítico. “Devido ao coronavírus, nossas fábricas ficaram fechadas durante dois meses. Mas todas já foram reabertas”, garantiu, lembrando que a marca está presente em 20 cidades da França, duas da Itália, duas da Polônia, duas nos Estados Unidos e uma no Brasil —, esta, porém, momentaneamente com as operações paralisadas. “Chegamos a ter 80 casos de coronavírus dentro de fábricas europeias, o que nos obrigou a parar. (…). Felizmente, mesmo dentro desse cenário, não tivemos muitos cancelamentos por parte dos clientes, que compraram nossos barcos no inverno europeu, durante, por exemplo, o Boat Show Düsseldorf e o Boat Show de Paris, o que pode ser uma fonte de otimismo para o mercado brasileiro”.

A nossa história foi sempre uma história construída nas crises

“A Azimut e todos nós estamos abalados, porque este é um momento extremamente difícil, muito desafiador. Afinal, estamos falando de vidas e, quando se fala de vida, estamos falando da coisa mais preciosa que temos. Ao mesmo tempo, a história da Azimut e da Itália nos ensinou a reagir da forma mais simples, mais instintiva, com o coração, nos princípios que sempre foram as bases, tanto da cultura italiana, como da empresa Azimut, com a força de responder a eventos dramáticos, como a crise do petróleo, no início doa anos 70, e os difíceis anos 80 (…) A nossa história foi sempre uma história construída nas crises”, disse o italiano Francesco Caputo, nome à frente da Azimut no Brasil, relembrando alguns fatos históricos pelos quais a Azimut passou em seus 51 anos de vida.

O executivo da Azimut Yachts destacou mais uma vez o poder da marca em se reinventar em meio a cenários não propícios, bem como a sua expertise em gestão de pessoas. Além disso, comentou a nomeação de Marco Valle como novo CEO do grupo, a partir de setembro. “Não foi uma decisão motivada pela pandemia, mas não podia acontecer num momento melhor! Marco Valle representa esse DNA da Azimut. Acredito que seja a pessoa certa no lugar certo”, defendeu.

Para concluir, Francesco revelou que a Azimut abriu mais de 30 cursos online, tanto na área de vendas como na de pós-vendas, além de manter um “lounge” virtual para melhor interação com os clientes, que podem fazer visitas virtuais a seus modelos, “entrando” nos barcos mesmo à distância. Ele defendeu também a navegação como uma das poucas atividades seguras para se praticar durante a pandemia. “Hoje em dia, fora de casa, a única verdadeira diversão que podemos ter, com conforto e tranquilidade, ao lado da família, é dentro de um barco. Então, esse está sendo um ponto muito favorável para quem produz barcos, não apenas para a Azimut como para todas as marcas a nível mundial”.

Gerenciamos essa crise de forma positiva. E todas as nossas fábricas já voltaram a funcionar

Em mensagem de vídeo, Martin Bjuve, presidente da Volvo Penta América, que conhece bem o Brasil porque morou aqui durante muito tempo, desde que entrou para a Região América, há sete anos, iniciou sua mensagem dizendo que teve boas experiências de navegação em nossas águas. “Tive a oportunidade navegar bastante com o Neto, da Intech Boating, e com o Marcio, da Schaefer Yacht. É um país fantástico para passeios de barco”.

Sobre a pandemia de coronavírus, contou que as empresas do grupo foram afetadas tanto nos Estados Unidos como na Suécia, antes do Brasil. “Tomamos a decisão de cortar viagens e eventos para nossos funcionários. Também implementamos desde muito cedo a possibilidade de trabalhar em casa, priorizando a segurança de nossos funcionários, parceiros e clientes. (…) Mantivemos a equipe unida e garantimos que nossa confiança entre nós internamente estará mantida. (…Além disso) Mantivemos um diálogo diário com nossos parceiros e clientes. E isso foi importante. (…) Gerenciemos essa crise de uma maneira positiva”.

Sobre o chão de fábrica, o presidente da Volvo Penta América disse que decidiu suspender temporariamente a produção, no início da pandemia, e que agora está feliz porque, há algumas semanas, suas fábricas estão em funcionamento quase normalmente. “Todas as nossas fábricas já voltaram a funcionar e estamos fornecemos produtos aos nossos clientes”.

No que se referente à distribuição de peças, afirmou que “mantivemos abertos durante todo esse período nossos armazéns de distribuição na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil”. Definiu a indústria marítima como resiliente. “Percebo que a maioria das empresas, se não todas, estão entrando nessa crise com uma posição melhor do que a de 2007 e 2008”. Por isso, vê o setor saindo ainda mais forte nessa crise do que na última vez. “Minha experiência com a crise anterior é que os que mais se destacam são os que vêm com novos produtos, novas ofertas ou novas soluções, novas experiências. (…) Então, para vocês aí do Brasil, eu diria: aproveite a oportunidade para trazer as pessoas de volta aos barcos.”

Ernani Paciornik, do Grupo Náutica, avaliou o que é preciso acontecer para o Brasil chegar um pouco mais perto do mar de almirante. Uma das providências é a ampliação de nossa infraestrutura náutica. Outra, a diminuição dos custos operacionais, o chamado “custo Brasil”. Sem contar a valorização do turismo náutica, incentivando a geração de empregos no setor e o empreendedorismo da população local. “Este é o setor que mais rapidamente pode gerar empregos, porque não depende da implantação de indústrias. A região entre Cananéia e Paranaguá tem potencial para se transformar na nossa Croácia”, defendeu. Lembrou que temos muitos lugares maravilhosos para se navegar no país, mas que isso é ignorado pelas autoridades. Deu um exemplo de boas iniciativas nesse setor: “O governador Ratinho Jr. conseguiu atrair o Hard Rock Café, uns dos maiores grupos de entretenimento e hotelaria do mundo, para uma ilha banhada por rios, no interior do Paraná”.

Ernani lamentou também que ninguém do governo tenha se importado com o fim das operações da Brunswick e da Beneteau do Brasil. “Muitos de nossos parlamentares, certamente, também gostam de barco. Vamos convidar deputados e senadores para um debate”, prometeu. Lembrou que a Schaefer Yachts, com sucesso, teve de buscar mercado lá fora. E anunciou que, antes de abrir as portas do São Paulo Boat Show 2020, visitará o Cannes Yachting Festival, que inaugura oficialmente a temporada europeia de barcos. “Vamos ver qual é o protocolo que eles vão seguir lá para poder seguir aqui, com segurança”.

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Teste Ventura V195 Crossover – 19/03/2020