Embarcamos no submarino da Marinha. Conheça como é a vida debaixo d’água

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Atracado no cais do Porto de Santos, pronto para um teste de pouco mais de sete horas nas águas da região, o submarino S33 Tapajó — um dos cinco que integram a Força de Submarinos da Marinha do Brasil — expõe sua silhueta escura e impressiona ao primeiro olhar. Afinal, um submarino é um navio completamente diferente dos outros. Sim, navio. Só que, enquanto os convencionais navegam na superfície, submarinos se deslocam debaixo d’água. E é lá que ficam o tempo todo. Subir, só para trocar o ar de bordo, o que, inclusive, pode ser feito sem a necessidade de emergir totalmente. Além disso, navios convencionais têm uma grande superestrutura, montada num casco igualmente volumoso.

Já os submarinos são feitos para não chamar a atenção. O casco, esguio e baixo, assemelha-se a um grande charuto negro. Periscópios, antenas, algumas aletas e sensores, além da torre (chamada de vela e que abriga uma das duas escotilhas da embarcação), eram os únicos itens do grande barco de aço fora d’água. Não era para chamar a atenção, mas chama. Assim, era impossível desviar os olhos daquele enorme corpo metálico escuro.
Um submarino lembra muito a silhueta afilada de um peixe ou de uma baleia cachalote. Tal como algumas espécies de peixes, nosso S33 Tapajó pode passar dos 200 m de profundidade, num ambiente onde a pressão é mais de 20 vezes maior que a existente no nível do mar — some-se a isso o fato de que, distante duas centenas de metros da superfície, cada cm² do casco recebe uma força de 21 kgf!

Com a largura de um Boeing, mas sem nenhuma janelinha, o navio Tapajó é um dos cinco submarinos da Marinha do Brasil, a maior frota da América do Sul

Para suportar a pressão, o casco cilíndrico de 61,2 m de comprimento por 6,2 m de boca tem 1 polegada de espessura de puro aço. O convés e boa parte da vela são feitos de fibra (também pintada de preto), material que, além de deixar o navio mais leve, contribui substancialmente para melhorar suas características hidrodinâmicas, evitando, assim, a produção de ruídos que poderiam ocasionar a detecção desta embarcação — a qual, não podemos esquecer, é de ataque. Até porque, salvo eventuais pesquisas científicas, não haveria outra razão, que não o combate, para um navio navegar sob a água. Até por isso, também, submarinos têm propulsão diesel-elétrica, já que um motor barulhento denunciaria sua presença ao inimigo.

Incorporado à Marinha no fim dos anos 1990, o Tapajó, um dos quatro submarinos brasileiros da classe Tupi, desloca 1 400 toneladas na superfície e 1 550 submerso, podendo alcançar mais de 20 nós sob a água (e só 11 nós na tona). A tripulação do Tapajó tem nove oficiais e 35 praças, e a autonomia é para incríveis 50 dias de operação! Inclusive, consta no diário de bordo uma viagem de 25 dias submerso, entre o Brasil e a África do Sul, na qual foi mantida a profundidade de 13 m. Já imaginou passar quase um mês submerso enclausurado e, ainda, sem poder ver a luz do sol? Submarinos não têm janelinhas. São hermeticamente lacrados, como cofres, e a única maneira de ver alguma coisa é através do periscópio. Em dia de mau tempo, a pilotagem é feita por instrumentos, como num avião. O que é, de fato, um tanto decepcionante.

A primeira lição é como entrar em um submarino, descendo por um tubo de 10 m de altura. Um gordinho entalaria. Um medroso, nem tentaria

Entrar em um submarino (ou seja, se enfiar por uma escotilha lá em cima e descer, degrau por degrau, através de um tubo metálico estreito) é tarefa que exige algum preparo físico e, também, confiança. Assim que descemos pela escotilha da proa do Tapajó (existe apenas mais uma, na vela), recebemos instruções de como proceder em caso de abandonar o navio, em virtude de alguma avaria, estando submersos. Vestimentas especiais, como máscaras para respirarmos ar comprimido engarrafado (com duração máxima de seis dias), em caso de contaminação do ar ambiente, devido, por exemplo, a vazamento do líquido ácido das baterias. Uma situação como essa pode ocorrer, caso o Tapajó incline mais de 45 graus em qualquer direção. Não por acaso, a Marinha mantém um navio de resgate de submarinos, o único em operação na América do Sul.

A bordo, não existe desperdício de espaço. A começar pelos corredores, estreitos e com paredes recheadas de válvulas, manômetros e tubos salientes. Um submarino não se preocupa com a estética, mas sim com a eficiência. Dois adultos têm de “se virar” ao cruzar um com o outro, pois não há como duas pessoas se movimentarem lado a lado. As camas (algumas delas quádruplas, montadas na vertical) têm a privacidade garantida apenas por uma cortina — exceto nos pequenos camarotes do comandante e do imediato. Há apenas um banheiro para os oficiais e outro para os praças e, em submarinos da Marinha, dada a economia de água doce, é permitido deixar o rosto com a barba por fazer.
Em mar aberto e sentindo o movimento das ondas, a missão é manter o submarino operando e observar tudo ao redor. A presença de qualquer embarcação é marcada em um papel quadriculado.

Ao soar do alarme, o submarino mergulha, como nos filmes

E, assim, a navegação foi feita sempre desviando de barcos em prováveis rumos de colisão. O sonar também é usado e, enquanto uns navegam, outros tripulantes preparam o navio para a parte mais interessante, o mergulho. E aqui cabe outra curiosidade: submarinos não afundam, eles mergulham! Afundar, tecnicamente, significaria uma tragédia. Os motores a diesel impulsionam os geradores para carregar as baterias ao máximo, e os compressores trabalham de forma a manter os reservatórios cheios. Afinal, logo mais, a energia das baterias seria usada na navegação submersa. E, para fazer o navio mergulhar, é preciso alagar os tanques de lastro, expulsando, depois, a água destas câmaras para alterar a densidade do Tapajó e, assim, poder voltar à superfície. A operação deve ser bem controlada para manter o submarino em um ângulo ideal de descida, pois, se a velocidade de mergulho ultrapassar o valor programado, o submarino pode tocar o fundo do mar antes de conseguir estabilizar o Tapajó.

Como um submarino não nuclear, o Tapajó usa propulsão diesel-elétrica, com quatro motores MTU de 12 cilindros em V e 600 hp cada, acoplados a quatro geradores de 405 kW. Para efeito de comparação, o gerador de uma lancha na faixa dos 40 pés usa, em média, um de 9 kW. Os geradores alimentam um banco imenso de baterias de chumbo ácido (as mesmas usadas nos automóveis), capaz de fornecer 960 V. Estas baterias são substituídas a cada seis anos, período em que os submarinos desta classe passam por uma manutenção apurada.

Sobram tubos e válvulas por todos os lados. Além de desempenhar mais de uma função a bordo, para economizar tripulantes, o submarinista precisa conhecer cada detalhe do navio

Navegando, com as duas escotilhas fechadas, longe do continente, o comandante deu uma última olhada no periscópio, 360 graus ao nosso redor, para certificar-se de que não havia outra embarcação por perto. Neste momento, com os motores a diesel desligados, navegávamos silenciosamente, usando os propulsores elétricos. A operação é complexa. Até a água dos escapamentos dos quatro motores a diesel precisa ser drenada, para evitar que o líquido salgado, depois, volte, adentrando aos cilindros. O momento do mergulho é sempre uma situação delicada, pois tudo deve estar funcionando para evitar o aborto da imersão. Um som forte, avisando que o mergulho está iminente, foi soado. A partir dali, o navio inclinou a proa e, lentamente, observamos a profundidade aumentar no manômetro. O ar saiu dos tanques de lastro e a água ocupou seu lugar, tornando nosso navio mais denso. Ao menor sinal de entrada de água, teríamos de voltar imediatamente à superfície. No entanto, tudo transcorreu normalmente e, logo, atingimos a profundidade de 13 m.

Navegávamos bem devagar, a 3 ou 4 nós, velocidade na qual o sonar tem alta capacidade de detecção de alvos. Todos os grandes navios ao nosso redor foram devidamente catalogados, com nome, rumo e velocidade. Parecíamos estar numa guerra, de fato. Depois de um período submerso, a tripulação injetou ar para tirar a água dos tanques de lastro, voltando suavemente à superfície, de volta ao porto. Nas proximidades do canal balizado, começamos a ser assediados por muitas lanchas, navegando ao redor.
Acompanhei de perto a manobra de parar o Tapajó no mesmo local da partida. Como este submarino, a exemplo de tantos outros, tem um hélice e lemes posicionados à frente (e não atrás) do propulsor, a manobra, principalmente em baixa velocidade, é muito difícil. Por prudência, o comandante solicitou o apoio de dois rebocadores.

O Tapajó pode ultrapassar os 200 metros de profundidade

E, a uma grande distância, maior que 10 m, os marinheiros, tanto dos rebocadores quanto do Tapajó, conseguiram lançar as retinidas de maneira certeira. Estas retinidas são cabos finos que, presos às espias (cabos usados nas amarrações de navios), possibilitam puxar estes cabos grossos até os respectivos cabeços, que são os pontos de amarração (os quais, em nossos barcos, seriam os cunhos). Detalhe: estes cabeços no Tapajó, ao contrário dos cabeços dos navios, ficam embutidos, para não causar nenhum tipo de turbulência e não denunciar a presença do submarino e sua consequente detecção pelo inimigo. Navegar de maneira invisível é um item levado muito a sério. Até os uniformes da tripulação são escuros e, mesmo navegando à noite, raras vezes o radar é ligado, evitando, assim, mostrar a posição do Tapajó para outros navios.

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