Mudança climática faz mar engolir arquipélago panamenho

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Às 9 horas da manhã, três mulheres guna, a etnia indígena que habita o arquipélago de San Blas, no Caribe panamenho, tentam secar com areia o bolsão d’água em volta de casa na ilha de Sugdub Gardi. A chuva não teve clemência e as ondas ultrapassaram as rudimentares barreiras de coral que os guna construíram anos atrás para proteger essa ilhota do aumento do nível do mar, um lugar plano e de apenas um hectare e meio de extensão.

Agora, a maioria das vielas está tomada pela lama e a água chegou a entrar em várias cabanas, feitas de paredes de junco e teto de palha. Isso era típico em novembro, o mês dos temporais por excelência no Panamá, mas há um tempo está se tornando cada vez mais habitual em outras épocas do ano: o calendário de chuvas deixou de existir e o mar não para de crescer.

San Blas, o turístico arquipélago de águas transparentes que pertence a Sugdub Gardi e que, por sua vez, faz parte da comarca Guna Yala, é uma das áreas mais prejudicadas da América Latina pelo aumento do nível dos oceanos, uma consequência direta do aquecimento global e do degelo dos polos.

Com base em dados de um mareógrafo instalado nas proximidades do arquipélago, a água nesta parte do Caribe subiu cerca de 30 centímetros no último 50 anos, 11 centímetros a mais do que a média mundial. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), vinculado à Organização das Nações Unidas indicou no seu quinto relatório, publicado em 2014, um cenário desolador e alertou que, se continuar assim, o aumento médio dos oceanos poderia ser de até 30 centímetros em 2065 e de 55 centímetros em 2100, o arruinaria várias comunidades perto do mar.

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Um estudo elaborado em 2004 a partir de imagens aéreas publicadas pela revista “Conservation Biology” afirma que o arquipélago, formado por 365 ilhas – sendo 38 habitadas e as demais usadas para fins de turismo – perdeu em 50.363 metros quadrados em 30 anos. Sugdub Gardi, Ustupu, Mamidub, Anassuguna e Ogobsucun são as comunidades que correm mais riscos atualmente, segundo os especialistas. Mas o futuro não é nada simples para as outras ilhas e seus habitantes sabem disso. As autoridades panamenhas, também.

Cientes que o mar vai acabar se transformando em inimigo voraz e incontrolável, a comunidade de Sugdub Gardi iniciou em 2010 um pioneiro plano de mudança rumo à terra firme que evoluiu a passos lentos e que parece que agora finalmente está se concretizando. Os moradores se acomodaram em um terreno de 17 hectares no continente, a poucos quilômetros da ilha e de propriedade da comarca, e convenceram o governo a erguer um centro médico e uma escola no local.

Após anos sem avanços, há poucos meses, a primeira licitação para a construção de 300 casas foi feita. O plano está pendente de aprovação das autoridades e servirá de exemplo para caso outras comunidades queiram se mudar futuramente para o litoral. De acordo com a ONG suíça Displacement Solutions, Sugdub Gardi será o primeiro povoado indígena da América Latina a ser desalojado pela mudança climática.

O abandono da ilha, que será totalmente voluntário, solucionará também outra dor de cabeça da comunidade: a superpopulação. Sugdub Gardi é pequena, as cabanas se aglomeram umas nas outras e a população não para de crescer. Cada casal tem em média cinco filhos e em cada cabana vivem cerca de 12 pessoas.

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