Monocascos X Catamarãs

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Tal como acontece com as torcidas no futebol, quando o assunto é o time do coração, também há uma polêmica sem fim no meio náutico quando o tema entre os usuários de barcos a motor diz respeito a navegação de monocascos e catamarãs. A escolha por um ou outro tipo de casco, na verdade, depende da oferta de monocascos e de catamarãs no mercado, do uso que faz do barco, do preço e ainda do tipo de motorização. Em relação ao primeiro item, os monocascos ganham de lavada, pois representam mais de 95% dos barcos a motor à venda no Brasil. Porém, se o critério for o uso, ou melhor, o tipo de navegação, aí sim há o que por na balança. Por exemplo, para navegar em mar picado, com ondas curtas e não muito altas, situação bem comum na costa brasileira e também em algumas baías como a Baía de Todos os Santos (em Salvador), os catamarãs são imbatíveis, pois amortecem muito mais o choque contra as ondas que os monocascos. Claro que há catamarãs bons e ruins, como existem monocascos que cortam suavemente as ondas e outros que são duros na água como pau ferro em terra. Quanto ao preço, os catamarãs costumam custar mais, principalmente porque usam mais material na laminação e quase sempre precisam de dois motores.

Durante minha vista aos veleiros da Volvo Ocean Race, em Santa Catarina, peguei uma carona de Florianópolis até Itajaí no novo catamarã de 29 pés, modelo 8XF, ainda um protótipo, do estaleiro Mastro D’Áscia, num dia em que os ventos sopravam do sul e as ondas curtas e desencontradas chegavam perto de um metro de altura. Era o tipo de mar desagradável para sair de barco, mas não para o novo catamarã de 9 metros da Mastro D’Ascia, um estaleiro de Santa Catarina especializado em catamarãs. Impulsionado por dois silenciosos motores de popa Mercury 4 tempos de 150 hp cada, navegamos a favor das ondas, rumo norte, de maneira relativamente confortável para aquele estado de mar, mantendo 20 nós, com os motores girando sem esforço a 3 000 rpm, gastando, ambos, apenas 31,4 litros por hora, de acordo com a instrumentação dos motores. Isto significa uma eficiência invejável para um barco de 29 pés com 300 cavalos na popa! Olhando para a proa deste catamarã, a sensação era de estarmos voando sobre as ondas, apoiados num colchão de ar. A vontade era de acelerar mais, hipnotizados que estávamos com o caturro suave do 8XF, totalmente estável em seu elemento natural (leia-se mar agitado), navegando a 37 km/h com muita maestria.

No meio do trajeto resolvemos mudar o rumo em 180 graus, somente para verificarmos como é o navegar, mantendo a proa contra os ventos e as ondas. Claro que, nestas condições, tivemos de reduzir um pouco a velocidade para 18 nós, sendo que neste regime mantivemos o mesmo nível de conforto da navegação a favor das ondas. Depois desta manobra, voltamos a apontar a proa para o norte e, perto do nosso destino, vimos uma lancha monocasco de 40 pés sair em velocidade das águas calmas próximas a enseada de Balneário Camboriú e aproar para o sul. Não passou mais de 30 segundos para que o piloto desta lancha reduzisse os manetes, se adequando a sua capacidade de navegação naquelas águas, contra as ondas. E, visualmente, a velocidade desta lancha, depois da redução do curso dos manetes, era bem menor que os 18 nós que mantivemos nas mesmas condições.

Realmente, em mar picado, a facilidade com que um catamarã corta as ondas, amortecendo o impacto contra o casco é impressionante, a ponto de conseguir ser bem mais rápido do que lanchas monocascos bem maiores. O 8XF da Mastro D’Ascia, que deve estar finalizado ainda neste semestre, é prova disto!

Assista o vídeo para saber como foi essa viagem:

 

Marcio Dottori é diretor técnico da Revista Náutica há mais de 20 anos e o mais respeitado especialista em barcos do Brasil

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Engenheiro naval, diretor técnico da Revista Náutica há mais de 20 anos e o mais respeitado especialista em barcos do Brasil. Também é membro do Fórum Náutico Paulista, editor do Guia de Barcos e, no passado, tornou-se o primeiro brasileiro a cruzar, de veleiro, o Atlântico.