A maior livraria flutuante do mundo mostrou que tem bem mais que apenas livros a oferecer

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Você pagaria para entrar em uma livraria? Ficaria horas em uma fila que dá voltas só para fazer isso: pagar para entrar em uma loja? Pois, neste exato momento, em algum porto do mundo, é exatamente isso que uma multidão de pessoas está fazendo: aguardando pacientemente em uma fila gigantesca pela oportunidade de comprar um ingresso que dará direito a entrar numa livraria — onde, muito possivelmente, encontrarão os mesmos livros que achariam em qualquer esquina, sem ingresso nem filas. Por que fazem isso? Porque não se trata de uma livraria como outra qualquer, embora o que eles irão encontrar lá seja apenas uma grande, mas convencional, livraria, com estantes e prateleiras forradas de livros de todos os gêneros, principalmente evangélicos.

A diferença é o local onde essa curiosa livraria fica: dentro de um navio, que é, basicamente, apenas isso: uma grande livraria — a maior livraria flutuante do mundo. E isso faz toda diferença. Assim como a sua inusitada livraria, o Logos Hope (algo como “Palavra Esperança”, numa mistura de grego com inglês) também não é um navio como outro qualquer — e não apenas por transportar apenas toneladas de livros, sobretudo bíblias, de todos os tipos, tamanhos e idiomas (as mais vendidas são justamente as que trazem a imagem do navio na capa). O Logos Hope é uma espécie de ONU evangélica itinerante, habitada por uma comunidade que mistura pessoas dos mais diferentes países, mas com um só propósito: ajudar o próximo, com ênfase especial naqueles de países mais pobres.

Em busca desse objetivo, o navio (um navio de fato, com casco de aço, 130 metros de comprimento, nove deques e uma tripulação que passa de 400 pessoas, a esmagadora maioria jovens, na faixa dos 20 anos de idade) passa o ano inteiro navegando, pulando de porto em porto e fazendo longas escalas em cada país, movido, sobretudo, pela generosidade — tanto dos seus ocupantes, que demonstram explícito prazer em receber e conversar com quem nunca viram antes, quanto dos seus milhares de visitantes, que não se importam em pagar para entrar numa livraria e encarar longas filas só para ter uma ideia de como é a vida dentro de um navio. “O navio é a caridade na sua essência”, define um dos jovens tripulantes do Logos Hope, um americano de 22 anos, que se diverte ensinando inglês aos visitantes, em troca de algumas palavras que eles lhes ensinam em português. “Nós ajudamos eles, compartilhando conhecimento, e eles nos ajudam, comprando os livros da livraria, para que possamos seguir navegando e ajudando outras pessoas”, explica.

Mas não são apenas os ingressos e a livraria que sustentam o navio — até porque seria preciso muito mais que isso para custear suas despesas, bem como as das mais de 400 pessoas que vivem a bordo, em períodos que podem chegar a dois anos. Livros e visitantes representam apenas uma das pás do hélice que mantém o navio em movimento. O restante do dinheiro vem de doações de pessoas, empresas e organizações que se identificam com a causa e os projetos sociais do Logos Hope (que pertence a uma entidade religiosa alemã sem fins lucrativos), e dos pagamentos que os próprios tripulantes, todos voluntários, fazem para poder viver nele, o que torna o navio ainda mais curioso.

Muito provavelmente, o Logos Hope é o único navio do mundo onde todo mundo (inclusive o comandante, o alemão Samuel Hils) paga para trabalhar. “Vou passar dois meses trabalhando no navio, que me custarão 1 600 dólares — explica a santista Joyce, que se juntará a outros 15 brasileiros já a bordo. “Mas não é muito, perto da experiência de conviver, dia e noite, com gente do mundo inteiro, e, ainda por cima, praticando a caridade”, avalia.

O navio chegou ao Brasil no fim de agosto e visitou os portos de Santos, Rio de Janeiro, Vitória, Salvador e Belém. Agora, tomará o rumo do Caribe, iniciando mais uma volta ao mundo, dentro do seu incansável cruzeiro, que nunca termina. “Ao longo da nossa história, estivemos em mais de 1 500 portos, de 151 países, e recebemos perto de 50 milhões de visitantes, o que significa que uma em cada 150 pessoas do planeta já esteve em um dos nossos navios”, diz, orgulhoso, o diretor geral do Logos Hope (um navio, como se vê, diferente, porque também tem comandante e diretor), o coreano Pil-Hun Park, que, assim como todo mundo a bordo, mora no próprio navio. Alguns, com a família inteira. Crianças, inclusive.

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Para elas, existe até uma escolinha a bordo, que também ensina diversos idiomas. Além disso, o navio tem médico, dentista, padeiro e tudo o mais de uma pequena comunidade. Só que itinerante e flutuante. “Já estamos na nossa terceira temporada no navio e nossas filhas, que hoje têm 6 e 7 anos, praticamente nasceram e cresceram nele” — diz, com visível satisfação, o holandês Tramen Buurma, de 38 anos, que conheceu sua mulher, a trinidadiana Haelyn, também a bordo, e hoje trabalha como engenheiro-chefe do navio — enquanto ela atua na livraria.

A “casa” deles é uma cabine dupla adaptada, que recebeu uma pequena cozinha, onde o casal prepara um ou outro lanche para as filhas, já que todas as refeições são feitas no grande refeitório comunitário, que é gerido pelos próprios tripulantes, quase sempre jovens que nunca trabalharam antes. Muito menos num navio. “Alguns trabalham na cozinha, outros no convés, na lavanderia, na torre de comando ou mesmo na sala de máquinas, em turnos de oito horas, como em qualquer empresa” — explica Tramen, que é um dos mais velhos a bordo.

A diferença é que, no navio, a tripulação fica o tempo todo em contato com pessoas de outras nacionalidades, que têm outras culturas e outros hábitos e ensinam a ser tolerantes e respeitar uns aos outros. “Nós promovemos a paz, abraçando a diversidade”, resume o engenheiro, que vendeu sua casa na Holanda, para, com parte do dinheiro, pagar o custo de trabalhar no navio. Sempre com um sorriso no rosto. “Como não temos mais casa para morar, somos livres para ir para onde quiser, quando deixarmos o navio, daqui a dois anos”, explica Tramen, invertendo a lógica reinante no mundo das pessoas convencionais. E completa: “Isso não é maravilhoso?”.

Quem tem um navio como casa, e não só trabalha de graça como paga para trabalhar, decididamente, não é alguém como outro qualquer. E isso inclui a quase totalidade dos tripulantes do Logos Hope. “Todos no navio seguem os ensinamentos da Bíblia, mas não promovemos cultos evangélicos, só espetáculos de música e dança para os visitantes, que, também por isso, adoram visitar o navio” — explica a indiana Anusha Moodley, há muitos anos vivendo a bordo. “Nós oferecemos ajuda e compartilhamos conhecimento, seja nos livros da livraria ou na experiência pessoal de cada tripulante.”

Um bom exemplo disso acontece na lanchonete do navio, onde todos os visitantes desembocam depois de passar pela livraria e por uma apresentação da proposta do Logos Hope. Ali, sempre há jovens tripulantes dispostos a interagir com os visitantes — e no idioma que eles preferirem. Alguns colocam plaquinhas sobre a mesa convidando as pessoas a aprenderem algumas palavras no idioma deles, enquanto outros fazem exatamente o contrário e pedem que os visitantes lhes ensinem português. Por essas e outras, os visitantes acabam passando horas dentro do Logos Hope e voltam para casa satisfeitos, apesar até da longa espera na fila. Afinal, não é todo dia que se tem a oportunidade de visitar um navio que tem um pouquinho de cada canto do mundo dentro dele, e que, além disso, é uma improvável livraria.

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