Velejador carioca dá dicas de como cozinhar a bordo em livro. Confira

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A cena aconteceu há pouco mais de 15 anos. O carioca Mauricio Rosa participava da Refeno com outros colegas e não se conformou com a qualidade da comida servida a bordo do veleiro. “Só tinha arroz ‘unidos venceremos’ e macarrão ‘tamo junto’, sem sal nem nada! Foram dois dias comendo biscoito”, recorda.

A experiência foi tão traumática que o velejador, incentivado pelas filhas, Thaty e Paulinha, decidiu escrever um livro sobre como cozinhar embarcado. Mas Gastronomia em Veleiros não veio à tona só por causa desse episódio, mas também para desmistificar um conceito há muito enraizado na cultura náutica: o de que é complicado cozinhar a bordo. “Quero mostrar que dá para comer bem, seja numa regata, seja numa travessia de um mês”, explica Mauricio.

Quando escreveu o livro, Mauricio, já aposentado, morava em um Fast 345, o Alphorria. Logo depois, conheceu Tania Meirelles, que hoje é sua esposa. Juntos, eles viveram cinco anos no barco, que ficou pequeno e, por isso, vão se mudar para um catamarã maior, de 38 pés, o qual oferece também espaço mais adequado para cozinhar e receber amigos. “Nós gostamos de gastronomia e até damos cursos, em terra”, diz. No novo barco, que também se chamará Alphorria, o plano é oferecer cursos embarcados, inclusive com charters em Angra dos Reis, se os clientes quiserem.

“O veleiro é uma casa que balança. Queremos ser fieis a isso e cozinhar no mar, velejando ou fundeados, o que é diferente de ficarmos ancorados numa marina, onde todos os recursos estão à mão”, comenta ele.

O livro tem tido tão boa aceitação que, segundo Mauricio, até quem não veleja compra. “Acredito que isso aconteça porque se tratam de pratos fáceis de fazer”, diz ele, para quem comer bem não tem nada que ver com refeições caras. “A ideia é resgatar aquele prazer de saborear uma comida fresca, bem-feita, que agrade ao olhar, com uma boa apresentação, ao olfato, com um aroma gostoso, e, claro, ao paladar”, resume.

E mesmo quem nunca pilotou um fogão na vida pode se animar. “É preciso ter disposição. Qualquer um pode cozinhar!”, diz Mauricio, parafraseando o bordão celebrizado pela animação Ratatouille, que ele adora. Além do preparo dos pratos, Mauricio ensina a comprar e armazenar os alimentos e, ainda, a usar utensílios adequados. O velejador lembra que as condições de mar devem ser levadas em conta, assim como o estilo da velejada, percurso, duração e número de pessoas a bordo, entre outros fatores. “Mais importante que as receitas é a lógica por detrás delas, o que é necessário para fazê-las”, filosofa.

Para produzir este seu primeiro volume, Mauricio limou um capítulo sobre a conservação de alimentos a bordo sem refrigeração. “Podem achar que eu estou indo na contramão da evolução, porque, hoje, as embarcações não têm apenas caixa de gelo, e sim geladeira e até freezer”, afirma. “Mas acho importante resgatar esse princípio, que permite saborear uma comida fresca, em vez de congelada”, avalia. O capítulo deverá ser aprofundado e, com a ajuda de Tania, virar outro livro.

Mas, primeiro, o casal vai percorrer a costa brasileira com calma, a bordo do novo Alphorria. No segundo semestre, o plano é dar início aos cursos embarcados, até que, daqui a dois anos, os dois partam para o Caribe. “Queremos passar de quatro a seis anos lá, conhecendo os lugares e, principalmente, as pessoas”, diz Mauricio, que, como bom cozinheiro, veleja como quem prepara um prato em fogo brando.