Joana II: a última lancha de Ayrton Senna navega até hoje

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Com os motores e a pintura originais, a lancha Joana II — última lancha de nosso eterno ídolo Ayrton Senna —, navega nas águas do Guarujá como nos velhos tempos, só que agora anonimamente, com seu primo no posto de comando

Aparentemente, esta Panther 33 não tem nada diferente do que é possível encontrar em uma lancha desse modelo, fabricada na década de 1970 pela Intermarine. Mas ela tem um diferencial: pertenceu ao gênio, herói e mito Ayrton Senna da Silva, piloto tricampeão de Fórmula 1.

E isso faz da Joana II — esse é o nome desta joia — uma lancha rara e muito especial até hoje. Um barco de valor histórico e — para seu atual proprietário, Fábio da Silva Machado — sobretudo sentimental.

Cultuador de uma vida simples, em contato com a natureza, Ayrton Senna, costumava, quando adolescente, passar as férias em fazendas da família ou de amigos, no interior de São Paulo. Apesar das diversas temporadas nas praias de Ubatuba, no litoral paulista, a paixão pelo mar só ganhou força após ele ter se consagrado nas pistas do circuito de Fórmula 1.

Tudo começou em 1991, quando o piloto comprou, em Angra dos Reis, a casa de Antonio Carlos Almeida Braga — o Braguinha, ex-dono de uma das maiores seguradoras do Brasil, a Atlântica Seguros, empresa que se fundiu à Bradesco Seguros. Rapidamente — como seus carros nas pistas — o mar entrou na veia de nosso tricampeão. Para isso, teve peso decisivo a paixão despertada por uma lancha que fez parte do pacote de compra da casa: sim, a Joana II, que até hoje é usada pela família de Senna.

Construída em 1986, a lancha é mantida toda original, com dois motores diesel Volvo Penta AQAD-41 de 200 hp cada, acoplados a rabetas Duoprop — ou seja, com dupla propulsão (dois hélices em cada motor). Isso faz dela um barco tão veloz quanto o próprio ex-dono. Por muito tempo, a Panther 33 foi sinônimo de lancha offshore.

Nascida de um projeto importado da Inglaterra, das pranchetas de Colin Chapman (sim, o saudoso fundador da equipe Lotus, cujos carros foram pilotados por Emerson Fittipaldi e Ayrton Senna), este modelo de linhas esguias foi o primeiro esportivo a ser fabricado em série pela Intermarine, na faixa dos 10 metros de comprimento. Também foi uma das primeiras offshore a navegar no Brasil — e a primeira a conquistar os corações dos pilotos e das patricinhas de então.

Quanto à Joana II, seu primeiro e famoso dono a batizou com o nome da filha caçula — Joana de Almeida Braga, ex-mulher de Arnon de Mello Neto, filho do ex-presidente Fernando Collor. Até então, era apenas uma lancha de lazer. O que a transformou no mais famoso barco de Angra foi justamente o fato de Ayrton Senna ter se tornado o seu capitão, em 1991, quando, cansado de uma rotina em que não havia lugar para o descanso, decidiu pôr um pouco de água do mar em sua vida.

Nos negócios, nas pistas e na vida, Senna sempre foi muito exigente. Durante dez anos, sua vida foi praticamente dedicada apenas ao trabalho. Sempre que estava em São Paulo, ele aparecia no seu escritório, instalado em um prédio no bairro de Santana. Muitas vezes ficava até depois do expediente, despachando com o primo Fábio. A Ayrton Senna Promoções e Empreendimentos, holding dos negócios do piloto, era parceira comercial de meia dúzia de empresas. Senna entrava com parte do investimento e com o nome. Arriscou-se até a construir barcos.

Mas Senna queria ter mais tempo para descansar e se divertir. Quando assinou contrato com a McLaren, por exemplo, exigiu que fosse incluída uma cláusula nova: a garantia de dois meses de férias por ano. Três anos depois, essas férias ganharam um destino certo: Angra dos Reis, ao lado da família, dos jets e da lancha Joana. A casa que comprou nas águas da Baía da Ilha Grande, onde passou a curtir os intervalos entre as temporadas de Fórmula 1, parece ter sido cuidadosamente planejada para ele.

Construída em madeira, com paredes de vidro que se abrem para o mar, tem piscina, quadra de tênis, dois heliportos, áreas de lazer, píer e uma garagem própria para a lancha Joana. “É o paraíso na terra”, definiu o próprio piloto. Era ali, em frente à Ilha Grande, que Senna fazia suas sessões de musculação e corria na areia escaldante — tão insuportável como o calor a que teve de se habituar no cockpit dos carros de Fórmula 1.

“Obsessivo pelo trabalho, Senna era também louco pelo movimento, pela velocidade e por todo tipo de esporte que pudesse lhe provocar vertigens. Detestava ficar parado. Corria e fazia exercícios de musculação para manter a forma física”, conta o engenheiro Fábio da Silva Machado, primo em primeiro grau de Ayrton e ex-diretor da empresa de licenciamentos da marca Senna. “Apesar da diferença na idade, de dez anos, crescemos juntos em São Paulo. Fui uma espécie de irmão mais velho dele”, lembra Fábio.

Até aí, Senna estava trabalhando. Nas horas de folga, divertia-se praticando esqui e andando de jet, além de levantar voo com seu avião ou helicóptero e de pilotar a Joana II ao lado dos amigos e das belas mulheres de que vivia cercado. No rol dos amigos que estiveram a bordo da Joana, incluem-se parceiros de dentro e fora das pistas, como o austríaco Gerhard Berger, o inglês Ron Dennis e o apresentador Galvão Bueno. Já no rol das mulheres, incluíam-se… Bem, é melhor deixar pra lá.

Após a morte de Ayrton, em 1994, durante o GP de San Marino, na Itália, seus pais e irmãos optaram por usar a A.S Atalanta (veja história aqui) e não usar mais a Joana. Daí em diante, a lancha passou para as mãos de seu primo-quase-irmão Fábio, que não só guardou (muito bem, por sinal) esta relíquia náutica como a usou desde então, como o barco de passeio da família. “Poucos sabem que a Joana foi o principal barco de lazer do Senna. Felizmente, ela continua na família”, defende Fábio, orgulhoso.

Atualmente, o barco fica em uma marina no Guarujá, em São Paulo, e ainda mantém todos os detalhes originais da época em que era pilotado por Ayrton. A pintura do casco é a mesma. Os velhos motores Volvo, um dos melhores da marca até hoje, apenas recebem manutenção periódica.

A cabine, que chegou a abrigar Senna por algumas noites no Saco do Céu, na Ilha Grande, continua impecável. “Até os estofados dos bancos e do solário permanecem iguais”, garante Fábio, que aprendeu a gostar de barcos com o primo. “A Joana é especial. Foi minha estreia em náutica e o único barco que tive até hoje”, diz, professando amor eterno pela lancha de nosso eterno ídolo.

A Intermarine Panther 33 teve a receita perfeita de um casco navegador

Um dos símbolos de uma época em que as velozes lanchas offshore exerciam uma atração irresistível sobre o consumidor brasileiro —­ do início dos anos 1970 até por volta de 1995, quando as vendas entraram em franco declínio — a Panther 33, construída pela Intermarine, nasceu de um projeto importado da Inglaterra e teve seu reinado na década de 1970.

Seu casco era tão bom que, nos anos seguintes, deu origem a outro sucesso da Intermarine: a Cigarette 36, projeto totalmente nacional, baseado, apenas, nas mitológicas Cigarettes americanas, e que vendeu mais de 500 unidades, até ser retirado do mercado, em 1995.

O segredo de seu sucesso? O casamento perfeito de um casco navegador com o motor Volvo Penta de 165 hp, que não andava tanto assim (40 nós de velocidade máxima), mas que em compensação não quebrava nunca. Até hoje o barco tem uma legião de aficionados e, consequentemente, seu valor comercial é elevado, por conta da confiabilidade de sua mecânica.

Depois da Panther e da Cigarette, a Intermarine continuou reinando no segmento das offshore com a Scarab 38, a Cougar 42 e a Excalibur 45. Depois de alguns anos sem fabricar nenhuma lancha de alta performance, a Intermarine voltou ao mercado nesse segmento com a Offshore 48, cujo casco foi herdado da Intermarine 46, depois com a Offshore 58, lanchas que impressionam tanto pela velocidade quanto pelo acabamento luxuoso. Se Senna estivesse vivo, certamente seria dono de uma.

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