Ilhabela recebe número recorde de baleias jubartes. Saiba como agir quando avistá-las

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Baleia-jubarte
Foto: Júlio Cardoso
Famosas por suas nadadeiras enormes e pelo belo balé aquático, as lindas baleias vêm abrilhantando a fauna em território brasileiro
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Se uma baleia encanta muita gente, imagina 114 carismáticas jubartes. Segundo registro do projeto Baleia à Vista, que faz monitoramento dos mamíferos no litoral norte de São Paulo, esse é o número de animais dessa espécie — famosa por seu canto, por suas nadadeiras gigantescas e pelo balé aquático — avistado em Ilhabela até esta quarta-feira, 29 de julho. E outras ainda são esperadas até o fim de agosto, ou início de setembro, quando se encerra a temporada de avistamento desses animais tão grandes, mas ao mesmo tempo tão dóceis.

Não é um fato isolado: desde 2016, para acasalar, esses grandes mamíferos têm migrado das águas frias da Antártica para o litoral norte paulista, e dali para as águas quentes do Nordeste do país, especialmente na região de Abrolhos, onde atraem centenas de turistas. O que chama atenção é o número delas, sempre crescente.

Em 2016, o primeiro ano da invasão, foram observadas em Ilhabela 30 baleias dessa espécie. Em 2018, o número cresceu: 42. E continuou crescendo em 2019, quando 101 jubartes foram avistadas. Com esse contexto, a prefeitura de Ilhabela se motivou a investir no chamado turismo de observação. Em 2020, até agora, nada menos que 114 indivíduos da espécie já marcaram presença nas águas da bela ilha. Algumas baleias nadam junto dos filhotes, que também são enormes. Surpreendentemente, elas chegam bem próximo da costa, e várias delas foram vistas até no Canal de São Sebastião.

“Aqui em Ilhabela, nunca se viu tantas baleias dessa espécie juntas, exceto há 300 anos, quando veio a caça e acabou com elas”, afirma o pesquisador Júlio Cardoso, um dos coordenadores do Projeto Baleia à Vista (criado por ele e pela bióloga Arlaine Francisco), além de diretor de sustentabilidade do Iate Clube de Ilhabela. “Elas passam em grupos de três, quatro, até cinco baleias”, completou.

As baleias

Tudo a ver com o crescimento populacional da espécie. Por conta de programas de conservação e da proibição da caça, estima-se que o Atlântico sul abrigue atualmente cerca de 20 mil baleias jubartes. Dessas, cerca de 9 mil chegam ao Brasil durante a temporada reprodutiva. Simpáticas e nada discretas, as baleias abrilhantam a nossa fauna, pulando, jorrando água e simulando danças — encenação que faz parte do ritual de acasalamento.

E não são apenas as jubartes que podem ser vistas de perto. Segundo Júlio Cardoso, neste ano Ilhabela foi surpreendida pela visita de baleias-de-minke, de raríssima aparição no litoral brasileiro, além de grupos de orcas, que entre julho e agosto fazem um curioso vai-e-vem entre Angra dos Reis e Arraial do Cabo e Búzios. Sem contar a presença da baleia-de-bryde, essa sim comum na região, que costuma ir para a superfície com a boca aberta para engolir cardumes inteiros de manjubinhas.

Outro instituto que monitora as ações das baleias em nosso litoral, o Megafauna Marinha do Brasil, que auxilia o projeto Baleia à Vista com saídas de campo, também registrou a presença marcante desses animais gigantes entre Ilhabela, Angra dos Reis e Búzios. “Ainda estamos fazendo um levantamento de campo. Mas, em apenas quatro dias, chegamos a registrar a presença de 30 a 40 animais nessa rota migratória”, conta o pesquisador Guilherme Kodja.

Como agir quando avistá-las?

Se você, em sua jornada pelo mar, der de frente com uma dessas gigantes, fique tranquilo: elas não são agressivas e não atacam os barcos, a não ser acidentalmente, por erro de percurso.

Qualquer um pode observar o espetáculo dessas baleias a bordo de uma embarcação, seja em cruzeiros de turismo ou em lanchas próprias. Mas, segundo Júlio Cardoso, há um protocolo a ser seguido. “O ideal é ter a bordo um monitor treinado. Em Ilhabela, há um curso para capacitação de 25 profissionais para turismo de observação, que não pode ser concluído nessa temporada devido ao novo coronavírus. O objetivo é passar as regras de aproximação e normas de navegação sustentável”, conta o pesquisador do Baleia à Vista.

Que regras são essas? São diretrizes de aproximação, métodos seguros para não prejudicar as baleias nem provocar acidentes. “Você tem de navegar em baixa velocidade, entre 12 nós e 15 nós, no máximo, e com gente na proa olhando para frente e para os lados a fim de avistar um borrifo ou algum sinal de baleia. Não pode ter pressa”, ensina Júlio.

Ao avistar uma jubarte, a aproximação deve ser feita lateralmente, sem bloqueio da rota do animal. “Mantenha uma distância de 100 metros e desengate o motor, mas sem desligá-lo. Isso é importante, não desligue o motor de jeito nenhum, porque as baleias se orientam pelo som”, explica o pesquisador. “Ouvindo o barulho do motor, se tiverem que saltar, elas sabem que tem alguma coisa ali e não vão saltar em cima do barco, acidentalmente”.

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Se uma baleia se aproximar do barco por curiosidade, o que costuma acontecer com as juvenis, não se preocupe. Deixe o barco desengatado, à deriva. Ela vai nadar em volta, assobiar e depois ir embora.

Baleia-jubarte

Importante: no máximo, a aproximação pode ser feita com duas embarcações, para não estressar o animal. Caso a baleia esteja perto de uma praia, você não pode deixar o barco “ensanduichá-la” em relação à costa. Com isso, o barco deve ficar do lado da costa e a baleia, do lado do mar aberto. Do contrário, ela pode encalhar.

Apesar de a temporada de avistamento em Ilhabela se estender de fins de abril a início de setembro, a concentração de baleias na região ocorre com maior intensidade nos meses de junho, julho e agosto.

Durante o verão, as jubartes permanecem nas proximidades da Geórgia do Sul, onde comem diariamente toneladas de krill — pequenos crustáceos parecidos com minicamarões. É somente durante esse período que elas se alimentam, armazenando energia para sobreviver durante o resto do ano, quando migram para as águas tropicais brasileiras a fim de se reproduzirem.

Até este ano, não havia registro de baleias se alimentando em áreas de reprodução. Mas há uma novidade, avisa Júlio Cardoso: “A grande questão agora é que começamos a ver casos de jubartes buscando se alimentar por aqui, e isso muda totalmente o dogma de que elas só se alimentam na região da Georgia do Sul/Antártica. E se encontrarem comida por aqui, vão ficar por mais tempo, e não apenas passar”, avalia o pesquisador do projeto Baleia à Vista. Daí a importância de a gente não atrapalhar sua bela dança.

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