Gravidez no Caribe enche de alegria o veleiro SV Ventura, de Lorena Kreuger

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Dizem que é doce viver no mar. Mas, e se durante um cruzeiro de longa duração, a bordo de um veleiro de 38 pés, a co-comandante do barco descobre que está grávida? Esse é o caso da catarinense Lorena Kreuger, que em março de 2019 iniciou, em Itajaí, uma viagem sem rumo certo nem hora para voltar ao lado do marido, o americano Zac Watson, e do filho, o pequeno Ian, atualmente com 4 anos. Um ano depois de chegar ao Caribe (o que aconteceu em fevereiro de 2020, quando o veleiro SV Ventura ancorou em Tobago), ela descobriu que estava esperando um bebê. Hora de voltar para casa, certo? Nem pensar. O neném deve chegar em outubro, possivelmente em Grenada, nas Antilhas. Até lá, Lorena diz que continuará “dando um rolê” pelas paradisíacas ilhas caribenhas”. E afirma que é, sim, doce viver no mar, apesar dos enjoos e das possíveis indisposições que a gravidez possa provocar.

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A notícia encheu a vida a bordo do SV Ventura ainda mais de alegria. E serviu de contraponto ao período em que a família teve de permanecer em total isolamento dentro do veleiro de 38 pés (que corresponde 11,5 metros), em consequência da pandemia. “Duas semanas após nossa chegada a Grenada, em março de 2020, a ilha registrou seus primeiros casos de Covid-19 e fechou suas fronteiras, entrando em lockdown. As regras foram rígidas. Passamos 30 dias sem poder sair do barco, apenas para comprar comida três vezes por semana. O Ian permaneceu todo esse tempo a bordo, sem descer. Foi um desafio enorme e desgastante”, conta Lorena.

Por conta das fronteiras fechadas em diversas ilhas do Caribe e da aproximação da temporada de furacões, eles decidiram permanecer em Grenada. “Foram nove meses morando a bordo, nessa pequena bolha caribenha, que nos conquistou”, lembra a velejadora, que, garante, em momento algum se arrependeu da ousadia em largar a casa e o comando da empresa da família em Santa Catarina para dividir a cabine de um veleiro com o marido e o filho.

Para quem não sabe, durante dez anos (entre 2008 e 2018) Lorena presidiu o estaleiro Kalmar, referência em marcenaria naval no Brasil. Quando trocou a casa por um barco — e, de quebra, deixou o comando da empresa —, ela levava consigo a disposição de criar seu próprio estilo de vida, apostando que no mar está o verdadeiro poder de transformação dos homens. “Não queria ser tão refém do trabalho. Sonhava com alguma coisa diferente. É preciso de muito pouco para ser feliz, e isso é o que importa na vida”, diz.

Dentro desse horizonte, a chegada do segundo filho não apenas foi bem recebida como comemorada. Estava tudo planejado. Desde o momento em que trocou alianças com o velejador Zac Watson, em 2014, Lorena deixou claro que seu sonho era ser mãe. E mudar de vida.

“A gente queria ter um filho. Só não sabia se iria velejar antes e depois encomendar o bebê ou se teria a criança e sairia para velejar com ela a bordo”, explica a ex-comandante do estaleiro Kalmar. À época, ela achava que não daria para embarcar com uma criança recém-nascida. Mas aí começou a pesquisar na internet e descobriu várias famílias que optaram por criar os rebentos na liberdade de um barco. Foi o impulso decisivo para tocar simultaneamente o plano de maternidade e o projeto de viver a bordo.

“Vi que a galera mora em veleiros, sim, com bebês a bordo. A recompensa sempre acaba superando os riscos. Então, perdi o receio de ser uma mãe marinheira”, revela a agora cruzeirista. Para se adaptar às novas condições de vida, um ano antes de soltar as amarras, a família passou a morar a bordo do SV Ventura (o SV é de Sail Vessel), veleiro de madeira muito confortável e seguro, projetado por Roberto de Mesquita Barros, o Cabinho.

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Enfim, chegou a hora de soltar as amarras. O Ian tinha menos de 2 anos quando fez sua primeira travessia em alto mar, de Itajaí a Ilhabela, cerca de 250 milhas náuticas, que levou dias para ser concluída. “Foi uma etapa superexigente, pois saímos com vento sul, condição sempre tempestuosa”, avalia Lorena.

Navegando e aprendendo, eles vagaram lentamente pelo litoral brasileiro durante dez meses, até se sentirem seguros para apontar a proa rumo ao Caribe. “Enquanto conhecíamos os recantos da nossa costa, víamos nosso filho crescer livre e se desenvolver. Os estímulos naturais formatavam sua composição e seu caráter, enquanto nós cuidávamos de desfralde, alimentação e as famosas birras e batalhas de uma criança normal de 2 anos”, recorda a mamãe zelosa.

Nem tudo foi mar de almirante. “Enfrentamos diversas aventuras e desafios em alto mar, o que, muitas vezes, me fez questionar a nossa escolha. Eu tinha muita dificuldade em dar atenção ao Ian com os enjoos dos primeiros dias no mar, e muitas vezes me vi cuidando sozinha do barco e da criança, enquanto o Zac descansava. Dividíamos o turno da noite em dois e cada um dormia cerca de 4 horas, sem muita opção para sonecas profundas ao longo do dia”, diz ela, descrevendo os primeiros meses de vida a bordo.

Com uma energia típica de uma criança de dois anos, o Ian despertava antes do sol, fazia birra antes de tomar banho ou passar o protetor solar e se divertia a valer com a vida a bordo.  Assim, foi crescendo de pés descalços, imerso nas coisas simples e aprendendo a observar e interpretar a natureza à sua volta.

Depois de passar o Natal de 2019 e o Ano Novo ancorado em Cabedelo, na Paraíba, o SV Ventura partiu rumo a Tobago, no Caribe, um trajeto de 2 000 milhas náuticas. “Preferimos fazer essa longa travessia em três pernas, com a ajuda de uma tripulante a mais, nossa amiga Juliana Mota”, explica Lorena. Foram 800 milhas, e seis dias, até ilha de Lençóis, no Maranhão; depois, cinco dias em alto mar até a Guiana Francesa, uma jornada dura, em que o veleiro chegou a ficar à deriva, por conta de um problema no leme; e outros três dias e meio em alto mar de Kourou até Tobago, porta de entrada do Caribe para quem vai do Brasil. Uma eternidade para quem só fazia pequenos cruzeiros ao longo da nossa costa.

“Finalmente estávamos em águas calmas e azuladas novamente. Não víamos a hora de pular de ilha em ilha em curtos velejos, depois de nove travessias”, confessa a ex-empresária. De Tobago, a família partiu para Grenada, a ilha seguinte, onde — ao lado do marido e do filho de 2 anos — Lorena passou três meses isolada, em consequência da pandemia de coronavírus e da aproximação da temporada de furacões, sendo 30 dias sem poder sair do barco, por conta do lockdown. Foi nesse clima de intimidade que o casal decidiu encomendar um irmãozinho para o Ian. Que já chegará ao mundo acostumado à rotina de velejar. Um bebê marinheiro.

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Kapazi