Gambiarras elétricas a bordo ajudam ou atrapalham? Saiba mais

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Foto: Shutterstock
Por Pedro Rodrigues*

A cultura da gambiarra está tão enraizada no DNA do brasileiro que é comum encontrarmos memes na internet mostrando os mais criativos improvisos com os dizeres: “o brasileiro precisa ser estudado pela NASA.” Com a popularização das redes sociais, as gambiarras subiram de patamar, sendo compartilhadas em tutoriais e aprimoradas, com ampla gama de versões disponíveis.

E no mundo náutico não poderia ser diferente. Enquanto muitos comandantes se orgulham do seu talento MacGyver, outros tentam esconder suas adaptações envergonhados, mas sejamos justos: quem nunca fez uma “gambi” que atire a primeira pedra!

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Muitas vezes por falta de conhecimento de normas e padrões, outras, para diminuir custos, encontrar alternativas para equipamentos difíceis de serem encontrados no mercado nacional ou, até mesmo, para se safar de uma pane em locais remotos, fato é que “dar aquele jeitinho” pode salvar o dia. Mas afinal, a gambiarra é uma vilã ou aliada?

Para avaliarmos essa questão, primeiramente precisamos esclarecer o conceito comum do qual esse artigo trata, no qual gambiarras são improvisos, geralmente criativos e de baixa qualidade estética, que solucionam problemas usando peças que serviriam para outros fins, mas, quando adaptadas, atendem a outra necessidade imediata. Muitas vezes desconsideram alguns pontos das normas e padrões técnicos.

Mas falando de normas e estreitando o assunto para área de elétrica náutica, às vezes, fica difícil segui-las uma vez que a maioria dos eletricistas e donos de barco tem como referência mais próxima apenas a NBR 5410 elaborada pela ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). O problema é que ela diz claramente que não se aplica a embarcações e não havendo outra específica, não resta muita alternativa para referenciar as instalações em embarcações de pequeno porte.

Então, seria um pouco injusto dizer que por estar fora da norma é uma gambiarra, afinal, o ambiente náutico é mais hostil que o preconizado pela NBR 5410. Questões como umidade, maresia, aterramento em água, uso de baterias e de extra-baixa tensão (menor que 50 volts) e instalações em ambientes com potencial explosivo devem ser levadas em consideração, demandando adaptações técnicas.

Mas essas adaptações são gambiarras?

Bem, algumas podem ser, outras já foram muito bem desenvolvidas de maneira independente por eletricistas e engenheiros brasileiros, mas há práticas que já foram amplamente estudadas e testadas. Países como Austrália e Nova Zelândia, possuem padrões elétricos para embarcações de esporte e recreio obrigatórias por lei, a Europa se referencia por normas da ISO (Organização Internacional para Padronização), mas a mais completa e que serve de referência para muitas outras vem da American Boat and Yacht Council (ABYC), uma entidade norte-americana sem fins lucrativos que desde 1954 se dedica a estudar e desenvolver padrões de segurança para o projeto, construção, manutenção e reparo de embarcações de esporte e recreio e seus componentes.

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Essas normas internacionais são aplicáveis ao mercado brasileiro?

Em se tratando de normas técnicas em elétrica, dois fatores são considerados na sua concepção: as propriedades naturais físicas e químicas que envolvem instalações elétricas e a padronização para melhor organização e entendimento comum das instalações, facilitando o trabalho e evitando acidentes.

A ABYC utiliza alguns padrões norte-americanos para cores de cabeamento, tensão da rede elétrica das concessionárias, modelos de tomadas, medidas em sistema imperial (tamanhos em pés, peso em libras, espessura em AWG), entre outros, que precisam ser adaptados aos nossos costumes.

Porém, considerando as propriedades físicas e químicas do ambiente náutico, muitas práticas como a maneira mais eficiente de fazer uma conexão, a escolha e posicionamento de disjuntores e fusíveis ou um sistema adequado de proteção contra raios, podem ser espelhados em normas estrangeiras para aumentar a segurança a bordo de qualquer embarcação.

Os danos causados por uma gambiarra mal feita, vão do simples não funcionamento de um equipamento, à avaria de onerosos componentes ou até mesmo a provocação de um incêndio rápido e descontrolado, que pode levar o barco a pique. De acordo com um estudo da US Boats feito entre 2009 e 2013, mais da metade dos incêndios em embarcações nos Estados Unidos foram provocados por problemas elétricos.

Agora, voltando à questão original, se gambiarras são vilãs ou aliadas, vou parafrasear um professor do SENAI, o engenheiro Rogério Possobom: “Se você não tem recurso material ou tempo, você está fazendo uma adaptação técnica de improviso, que depois deve ser corrigida. Mas se você tem recurso, tempo e mesmo assim faz uma adaptação definitiva, aí sim você fez gambiarra”. Então, ouvindo o professor, concluo que para se salvar de uma enrascada a bordo, é importante a habilidade e criatividade para fazer uma “adaptação técnica de improviso”, mas sempre que puder, faça sua instalação ou manutenção no melhor padrão técnico possível, para garantir segurança, durabilidade e confiabilidade na instalação.

Afinal, barco é para aproveitar, então vale gastar um pouco mais de tempo ou recursos para fazer bem feito e não perder o fim de semana embarcado com a família ou causar um dano irreversível. Ou como diria outro professor, Élio Crapun, “você deve tratar seu barco do mesmo jeito que deve tratar sua companheira (ou companheiro): com honestidade. Senão, ele pode te deixar na mão na hora em que você menos espera”.

Por fim, lembre-se: uma gambiarra mal feita pode causar graves acidentes com risco de perdas materiais e humanas. Se você não sabe bem o que está fazendo, não arrisque.

*Pedro Rodrigues é velejador e orientador em Elétrica Náutica certificado pela American Boat and Yacht Council – ABYC

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