Fera do Freeride

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Tiago Geitens não é um atleta comum, muito menos pratica um esporte fácil e conhecido. Esse gaúcho de 27 anos, natural de São Leopoldo, mas residente em Canoas foge à regra e viaja o mundo em cima de um jet. Gremista de coração tricolor, começou sua carreira aos 4 anos de idade junto com seu irmão mais velho e seu pai, num jet SX 750. 23 anos depois são mais de 25 títulos entre nacionais e internacionais, mas o mais importante ainda foi o primeiro deles. Campeão Catarinense na ski stock em 2002, era o regional mais forte na época.

Como a maioria dos campeões, sua base vem da família, e com Tiago não foi diferente. Seu maior incentivador sempre foi seu pai, “…quando tive minha lesão no joelho há 2 anos, era notável que ele estava mais chateado do que eu por ter de parar por um tempo…”. Questionado sobre as competições de jet no Brasil, Tiago é taxativo ao dizer que já foi melhor, até mesmo porque ele pegou a “nata” das competições brasileiras, época que os pilotos ainda treinavam diariamente e competiam nos campeonatos na Europa e América do Norte.

Geitens comenta que o poder aquisitivo nos anos 1990 e início dos 2000 eram outros, atualmente as cosias tem um valor de mercado muito maiores, isso prejudica muito, sabemos que não são todos que conseguem começar em um esporte a motor pois os custos são altos. Mas lembro de comprar jet nos anos 1990 a R$ 7.000 novo, hoje o mesmo equipamento vale R$ 38.000, exatamente o mesmo produto, mesma tecnologia.

As federações tentam fazer um bom trabalho aqui no país, mas não contam com o apoio necessário para levar o esporte adiante. Hoje no Brasil temos o Sul-Americano que já é um campeonato conceituado na América Latina e o campeonato brasileiro que não passa por uma boa fase. Há planos para o mundial de freeride voltar a ter uma etapa no Brasil, podendo ser no sul, em Santa Catarina ou Bahia, com isso voltaremos a ter uma etapa deste importante campeonato.

Em seu currículo vitorioso Tiago ressalta que seria interessante fazer um campeonato Europeu, mas o alto custo quase inviabiliza; talvez uma Kings Cup pela premiação que eles têm e grande número de excelentes pilotos que largam em cada categoria, o que me incentiva muito.

Runabout ou freeride? Certamente ski, com certeza. Ganhar é ganhar, óbvio, acredito que não há sensação melhor no mundo, mas ski é minha categoria predileta pelo conjunto de fatores que o piloto precisa. O equipamento precisa ser bom e confiável como qualquer outra categoria, mas a preparação física é essencial para se dar bem na categoria e a técnica também precisa ser muito apurada.

Esse gaúcho não foge à regra quando o assunto é ídolo, sendo o seu Jeff Jacobs, até hoje o maior vencedor de mundiais na categoria ski PRO, também da mesma época, ou pouco depois, Rick Roy, um dos melhores piloto sde Free Style de todos os tempos. Mas tem uma grande admiração pelo Pierre Maixent que tem um talento incrível para o FreeRide.

Qual o melhor piloto de jetski da atualidade, tanto no freeride quanto runabout?
FreeRide, com certeza o Pierre, já Runaboat é difícil, mas o Botti andou muito bem no mundial, é um cara que veio da ski, sabe muito bem pilotar qualquer equipamento, acho que por isso meu voto vai nele. No ski gosto muito do Steven Dauliach, mesmo não tendo feito um bom mundial no ano passado, acho que ele é um cara a ser batido, muito técnico, aguerrido e sempre está em boa forma física.

Na sua opinião, por que os campeonatos de jet praticamente acabaram?
A economia mundial passa por uma mudança muito grande, nos anos 1990 os jets de ponta, que podiam correr o mundial, não custavam mais de 12 000 dólares, hoje com os 4 tempos a tecnologia foi além, todos jets turbo ou supercharger, o valor os produtos subiram muito. Hoje um jet para correr um mundial, não custa menos de 30 000 dólares se for categoria ski, se for runaboat passa dos 60.000. No Brasil as categorias que ainda tem grid são as originais, que o custo dos equipamentos é apenas o preço dele e mais 5% a 15% de peças para correr na stock (categoria original). Por isso tanto fora como aqui as corridas estão mais em baixa e o freeride cresceu muito, continuam com os 2 tempos e ainda assim não precisam de maior tecnologia e preparação, assim os gastos não são exagerados.

A grande pergunta é quase sempre a mesma, por que as grandes marcas não investem no esporte?
Continuamos no mesmo caminho acima, não se tem retorno, a Sea-Doo é a única marca no meio do esporte mundial que faz dinheiro com o jet. Yamaha e Kawasaki tem empresas dentro do grupo que dão muito mais lucro, um exemplo as motos. O que está dando lucro e tem muita gente investindo ainda é os “aftermarkets”, que são fabricantes de cascos, peças em alumínio e performance, estas empresas ainda investem, mas não é relativamente um grande investimento quando comparado aos anos 1990?

Qual o melhor jet para freeride?
Hoje vivemos em uma era de “aftermarket hulls” que nada mais são que os fabricantes próprios de casco, temos mais de 10 marcas de bons cascos de freeride e freestyle no mercado, são cascos diferentes claro, mas um pouco parecidas perto de um casco de corrida para um de freeride ou freestyle. Com isso você monta com o motor que quiser, casco que quiser e turbina “hidrojato” que preferir. Com isso, hoje está sendo montado na Blowsion para o Surf Slam 2015 em setembro meu Tiger Craft com motor DASA 1100cc turbina Magnum Pump Skat-Trak de 158mm. O melhor kit em minha opinião hoje no mercado para freeride.

Qual a dificuldade para conseguir patrocinadores?
No Brasil temos dificuldades para muita coisa atualmente, os altos tributos e impostos são complicados, as leis de incentivo ao esporte são para poucos. Hoje tenho apenas patrocinadores dos Estados Unidos e um do Brasil, mesmo com o know how que eu e minha equipe temos, não estamos conseguindo apoiadores.

Tiago termina nosso papo com um dica, o jet Ultra da Kawasaki, que ele utiliza em competições desde que lançaram no mercado o Ultra 250X. “Pra mim melhor jet, tanto para raia fechada como para longas distâncias, e se você quer um jet apenas para brincar, é uma bela escolha também pois é muito confortável e supre todas suas expectativas”.

 

Ricardo Fuchs é fotógrafo da JetSkiNworld & Photojetski e viaja o mundo atrás das impressionantes imagens das competições de jets

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