Exclusivo

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O diretor técnico de NÁUTICA, Marcio Dottori, foi à Inglaterra conversar com Grégoire Outters, o francês de 43 anos que há 11 está à frente do grupo Flir, empresa americana especializada em câmeras térmicas e que adquiriu a Raymarine em 2010. Ele comanda uma equipe de 300 funcionários — responsável pelo desempenho arrojado deste fabricante de eletrônicos de ponta para navegação. Com a invejável conquista de 40 novas patentes, em apenas quatro anos, a Raymarine, empresa inglesa com fábrica na China, é hoje o fabricante de eletrônicos que possui os equipamentos de navegação mais avançados no segmento de barcos de lazer. E é sobre essa evolução que Outters conversa com NÁUTICA nesta entrevista exclusiva.


Quanto o grupo Flir e a Raymarine faturam por ano?

O grupo Flir fatura 1,5 bilhão de dólares por ano e a Raymarine 163 milhões de dólares.

 

Qual é o maior mercado para a Raymarine no mundo?

A Europa é o principal mercado para a Raymarine, onde entregamos 40% da nossa produção. O segundo, que está crescendo rápido, é o americano, que absorve 35% de tudo que produzimos.


Quanto representa o Brasil nas vendas da Raymarine?

O Brasil representa 8% das nossas vendas nas Américas e é um mercado muito importante para nós.


A Raymarine, até poucos anos atrás, era uma empresa relativamente conservadora em termos de lançamentos. Depois de ser adquirida pela Flir, tornou-se bastante agressiva, ávida por lançar produtos com tecnologia de ponta e em pouco tempo. O que está por trás desta mudança?

Nosso objetivo é evoluir sempre. Antes levávamos dois anos para desenvolver um novo produto. Agora gastamos apenas seis meses. O DragonFly, nossa sonda/gps capaz de mostrar imagens detalhadas do fundo abaixo do barco, é um bom exemplo disto. A ideia é esta: quanto mais rápido você desenvolve um produto, mais rápido você coloca um novo eletrônico no mercado e melhores são suas chances de venda deste equipamento no competitivo mercado mundial.


Isto aconteceu por causa do suporte da Flir?

Sim, mas não somente por isto. Desenvolvemos uma nova estratégia mercadológica para a Raymarine. Criamos produtos que não somente estabeleceram um novo padrão de tecnologia, mas que também determinaram novas maneiras de uso, com ênfase na simplicidade de instalação e de operação. Nosso piloto automático Evolution retrata bem isto. Em termos de desenvolvimento é um eletrônico extremamente sofisticado, usando nove referências para orientação, incluindo magnética, giroscópica e também acelerômetros. Porém, é muito mais fácil de ser manuseado do que um piloto automático convencional, já que praticamente não exige calibração. Usamos a tecnologia para facilitar a vida do usuário e não ao contrário.


Vocês não temem ser copiados?

Nós nos protegemos através de patentes. Tanto a sonda/gps DragonFly quanto o piloto automático Evolution exigiram que registrássemos todas as inovações que criamos para viabilizar estes eletrônicos. Atualmente, aumentamos nosso ritmo de desenvolvimento, objetivando patentear 20 novos itens por ano.


Tradicionalmente, a Raymarine se dedicou a fabricar eletrônicos para barcos médios e grandes. Com o lançamento da sonda/gps DragonFly, cujo custo é bem mais acessível, comparado aos outros eletrônicos da marca, a Raymarine está mirando o segmento dos barcos pequenos?

Sim, o DragonFly mostra claramente que estamos interessados também no segmento dos barcos pequenos. Mas nosso objetivo neste campo não é apenas fazer um produto mais acessível, mas também um equipamento com tecnologia de ponta e fácil de ser manuseado.


Então podemos esperar novos lançamentos nesta área, como gps portáteis?

Sim, lançaremos novos produtos para o segmento de entrada, mas dificilmente serão aparelhos de gps portáteis, já que estes eletrônicos são produzidos em larga escala e por um preço muito baixo. Nossa ideia é lançar equipamentos fixos para barcos pequenos, mantendo nossa linha de alta tecnologia, facilidade de operação e intercomunicação com outros eletrônicos, usando tecnologia wi-fi e bluetooth.


Os aplicativos estão cada vez mais presentes em nossas vidas, inclusive na área dos eletrônicos para navegação. Daí, os aplicativos poderão ocupar o espaço hoje ocupado pelos eletrônicos especialmente fabricados para barcos?

Não, não vejo assim. Para mim os aplicativos são complementares aos instrumentos de bordo, mas não imagino como um iPad poderá substituir um eletrônico fixo no painel. Em nosso centro de testes aqui na Inglaterra, desenvolvemos e testamos equipamentos para suportar os rigores do ambiente aquático, incluindo a presença de água salgada, umidade alta e exposição direta aos raios solares. Os tablets e smartphones já são usados como instrumentos complementares aos nossos eletrônicos de bordo, se comunicando com eles, mas não têm mesma função.


Com o lançamento de tantos produtos, em tão pouco tempo, não fica difícil para o consumidor absorver estes novos eletrônicos, em termos de conhecimento e mesmo em relação a gastos?

Procuramos manter sempre a mesma plataforma, independente dos recursos de cada equipamento, o que facilita o aprendizado. Como temos uma linha bem diversificada, deixamos para o consumidor escolher o que ele precisa. Se deseja um eletrônico apenas com tela sensível ao toque, então a escolha é pela série a. Porém, os que preferem ter um equipamento touchscreen, mas que também possa ser comandado por teclas, oferecemos os eletrônicos da série e. Já para os navegadores mais tradicionais, que preferem os instrumentos manuseados por botões, disponibilizamos os eletrônicos da série c. Para os proprietários de grandes barcos, como os iates temos a série gS, com monitores de alta resolução de até 19 polegadas.

Texto: Marcio Dottori

 

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