Corrosão no barco: veja algumas formas de evitar este problema

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Nos barcos, não é nada fácil evitar a ferrugem e a corrosão. Mas, mesmo quando as manchas começam a aparecer, nem tudo está perdido.

Barcos foram feitos para a água. Portanto, é natural que sofram com a umidade do meio em que vivem. Mesmo os barcos com casco de fibra de vidro contêm muitos metais (cunhos, guarda-mancebos, eixos, etc. etc.) e nem todos eles são suficientemente fortes para lutar contra a nefasta combinação de água + oxigênio, os dois elementos que dão início ao processo da corrosão em qualquer material.

No caso de água salgada, a situação é pior ainda: o sal potencializa o processo de corrosão, que se manifesta até nos ambientes do barco sem contato direto com a água — bastam os efeitos da maresia ou da falta de neutralização da corrosão nas partes submersas do casco, por exemplo.

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Portanto, nem sempre é apenas desleixo do dono do barco. A oxidação em ferragens de aço inox pode aparecer até em barcos extremamente bem cuidados, porque o ambiente marinho costuma ser um agressor implacável e particularmente feroz em itens como acoplamentos de alumínio e aço inox, bastante comuns em motores e propulsores, provocando estragos bem maiores do que uma simples aparência enferrujada.

Mas, se não há como impedir que a corrosão aconteça, há, sim, como prevenir ou, pelo menos, evitar que o problema se alastre de vez. No combate contra a proliferação da corrosão, o melhor remédio costuma ser o mais simples e o mais caseiro de todos: sempre lavar bem o barco e as ferragens com água e sabão depois dos passeios (especialmente no mar), além de polir regularmente as partes mais suscetíveis à corrosão com cera náutica.

Outro recurso muito útil é manter sempre em dia os anodos de sacrifício, que, como o próprio nome diz, existem para se oxidar no lugar das partes mais nobres do barco (confira mais detalhes clicando aqui). Vale tudo nesta guerra contra um inimigo que corrói tudo nos barcos. Até a paciência dos donos.

Ferrugem ou corrosão?

Embora os dois termos sejam largamente usados como sinônimos — não! —, não são a mesma coisa. Por definição, “corrosão” é um processo que provoca desgaste em uma liga metálica qualquer, como, por exemplo, o aço inox, que é uma mistura de quatro metais diferentes.

Já a “ferrugem” designa os casos específicos de corrosão no ferro. A rigor, barcos de passeio nem deveriam usar a expressão “ferrugem” (e sim “oxidação”), porque ferro é o que eles menos têm.

Outra confusão bastante comum é entre os termos “corrosão” e “oxidação”, que também não designam a mesma coisa. “Oxidação” é uma reação química, na qual um material ou elemento se une ao oxigênio, formando um novo composto — um óxido. E nem toda oxidação gera corrosão. Ela só ocorre quando esta reação química provoca a perda de material de uma das partes envolvidas.

Mas, seja “ferrugem”, “corrosão” ou “oxidação”, o fato é que todos eles são um problemão.

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As cinco dúvidas mais comuns:

  1. A corrosão ataca mais no mar?
    Sim. Além do sal, o mar contém cloro natural, o que acelera a corrosão, porque transforma a água em um eletrólito mais eficiente, aumentando sua condutividade elétrica — e eletricidade acentua a corrosão em qualquer metal. Isso faz com que ela avance bem mais depressa do que na água doce.

  2. Onde a corrosão costuma atacar mais?
    Nas ferragens do convés, especialmente nos guarda-mancebos, âncora e escadinha de popa. Mas as partes metálicas submersas, como eixos, rabetas, hélices e lemes, também estão sujeitas à corrosão acentuada, embora com menos intensidade, já que existem os anodos de sacrifício para evitar isso. Todas as partes internas do motor que estão em contato com o sistema suplementar de refrigeração (sistema marinizado) sofrem com a corrosão e também possuem anodos de sacrifício internos. Por isso a revisão periódica é tão importante e garante mais vida útil aos motores.

  3. Aço inoxidável também oxida?
    Sim, dependendo da qualidade do aço e dos cuidados do dono do barco. Alguns fabricantes usam ligas mais baratas, que resistem menos à corrosão — daí o problema. Os aços mais recomendados são os com especificação ABNT 316, em especial o 316L, este com o menor teor de Carbono. Ambos, além do Cromo e do Níquel, tem uma razoável quantidade de Molibdênio e, por isso, suportam bem mais os reagentes da água do mar.

  4. Existe receita caseira para prevenir a corrosão?
    Sim. Lavar bem as ferragens com água e sabão depois dos passeios — tanto no mar quanto em água doce — é a mais simples e eficiente maneira. O polimento com cera também blinda bem contra a corrosão nos metais. Mas — atenção! — não use cloro nem água sanitária neles, porque isso só aumenta o problema.

  5. Em qual estágio a “ferrugem” ainda tem cura?
    Bem antes de perfurar as partes afetadas. Se a tal “ferrugem”, na verdade a corrosão, atacar eixos e propulsores, é bem provável que o funcionamento e ou a resistência ótimas deles já esteja comprometida — portanto, tarde demais. Na maioria das peças de aço inox, basta um simples polimento para resolver o problema. Já parafusos enferrujados devem ser trocados, porque não vale a pena tentar salvá-los.

Onde ela costuma atacar?

  • Nas conexões:
    Use micro óleos ou graxas (mas não as corrosivas!) em todas as conexões de partes metálicas e elétricas. E faça isso periodicamente.

  • No motor de popa:
    Após “adoçar” o motor com água limpa, pulverize silicone nos seus mecanismos internos. Ele protege que é uma beleza.

  • Na lavagem:
    Após lavar o casco, seque o barco inteiro. Até as porcas, mesmo as de inox, estão sujeitas à corrosão, se ficarem molhadas por muito tempo. Deixar o barco secar ao sol não é uma boa ideia.

Nas baterias:
Baterias podem emitir gases corrosivos e, como costumam ficar nos porões dos barcos, vivem sujeitas a contato com a água doce e salgada, mesmo que só por vaporização (maresia). Sempre evite que isso aconteça. O certo é colocá-las em locais arejados e protegidos ao máximo desses elementos.

  • No aço inox:
    Em cunhos, guarda-mancebos, escadinhas e ferragens em geral, use gel à base de ácido nítrico, que elimina o óxido do inox. Primeiro, lave bem a peça com água e sabão. Depois, dilua o gel em um recipiente, com um pouco d’água e aplique a solução. Deixe agir por uns 15 minutos, esfregue novamente com sabão e enxágue. Pronto: o metal voltará a brilhar. Mas, para protegê-lo contra futuros pontos de oxidação, use cera náutica polidora, com frequência.

  • Na fiação:
    Use apenas fios de cobre certificados, que não corroem. Se eles forem protegidos apenas por capinhas de plástico, “pinte” os terminais com borracha líquida ou use fitas de auto-fusão, para vedar contra a umidade. E nunca deixe fios expostos ao sol, porque isso os resseca e facilita a entrada de umidade, gerando corrosão futura.

  • Na corrente elétrica
    A fuga de corrente elétrica para partes metálicas submersas do casco pode dissolver rapidamente qualquer metal. Desconfie, portanto, se algum equipamento elétrico parar de funcionar repentinamente.

  • No porão
    Sempre esgote toda a água do porão e jamais deixe objeto algum molhado dentro dele, mesmo que apenas úmido. Além disso, mantenha portas, gaiutas e vigias sempre abertas quando o barco estiver fora de uso, para ventilar — e secar bem — os ambientes internos.

  • No painel
    Barcos nunca estão livres de respingos de água no painel — seja da chuva ou dos borrifos durante a navegação. Para evitar infiltrações e problemas de corrosão nas fiações e terminais, cheque constantemente a vedação das borrachas do painel e dos instrumentos.

  • Nos parafusos
    Mesmo nos parafusos de aço inox, aplique selantes especiais, como Sikaflex, para mantê-los isolados da umidade. Lembre-se: parafusos enferrujam fácil, fácil.

  • Nas ferragens
    Quando a limpeza de rotina não for suficiente nas peças de inox, faça uma solução de gesso, bicarbonato de sódio e álcool e aplique com um pano. Jamais use vinagre para tirar manchas das ferragens (embora funcione!), porque deixa as superfícies pegajosas e isso aumenta a aderência do sal do mar.

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Alguns produtos que podem evitar…

  • NXT Generation
    Polidor automotivo com um poderoso abrasivo, que dá brilho às peças metálicas poucos minutos depois de aplicado. Além disso, forma uma película protetora e, o que é melhor ainda, retira todos os pontos superficiais de ferrugem.

  • Wurth Metal Polish
    Outro polidor, embora mais líquido. Trata bem os metais, formando uma camada protetora. Mas o resultado é melhor nos cromados, pois não deixa as peças com aspecto azulado, como acontece no alumínio.

  • Komatherm 600
    Protetor fabricado pela Brascola, que garante boa proteção aos metais, desde que aplicado com regularidade — como os demais produtos do gênero, por sinal. Sua secagem leva cerca de uma hora, mas a proteção dura quase duas semanas.

  • CorrosionX HD
    Produto bem eficiente, porque estabiliza a corrosão — algo raro, já que é bem difícil conter este processo depois de iniciado. Costuma ser aplicado em carretas náuticas, que sofrem um bocado com o contato constante com a água.

  • Graxa branca
    Ao contrário da tradicional graxa preta, é impermeável e oferece alguma proteção contra o surgimento de corrosão em partes metálicas. Mas resseca rápido, não isola completamente a superfície da umidade nem dura tanto quanto os produtos específicos.

E os que apenas ajudam a tratar

  • WD-40
    Além de soltar peças enferrujadas com facilidade, serve como preventivo contra a corrosão. Ou seja, dispensa outro produto para proteger a peça, depois de soltá-la para reparos. Mas tem cheiro forte e muitos navegadores suspeitam que resseque as borrachas — embora o fabricante afirme que isso não acontece.

  • Boat Shine
    Destrava e desenferruja rapidamente peças de metal, além de lubrificá-las. Mas não previne contra a ferrugem futura e cheira a óleo de cozinha velho. Em compensação, o fabricante jura que ele não danifica plásticos nem borrachas, se atingidos pelos borrifos.

  • SemoriN
    Este tradicional produto, usado por donas de casa para remover manchas de ferrugem das roupas lavadas, também vai bem nos barcos. Mas, como é muito ácido, pode gerar manchas no costado, além de deixar a superfície sem brilho, se for usado com muita frequência e em excesso.

  • Limpa costado Naustispecial
    Este produto promete remover manchas de ferrugem escorridas em cascos de fibra de vidro. Deve ser aplicado diretamente sobre a superfície afetada e, depois, enxaguado com água doce. Depois, uma camada de cera náutica líquida, para proteger de futuras oxidações, também cai bem.

  • Óleo Nautispecial
    Solta peças enferrujadas facilmente e é bom, também, para lubrificar e eliminar a ferrugem que já exista nelas. O fabricante garante que não agride outros materiais. Seu odor é bem mais agradável que o dos concorrentes, o que o torna especialmente indicado para uso dentro das cabines dos barcos.

“O anodo de sacrifício existe para enferrujar no lugar do barco inteiro”

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O anodo de sacrifício é o componente mais relevante para a conservação de todas as partes metálicas que ficam debaixo d’água — como rabetas, eixos e hélices, por exemplo. Não fosse ele, qualquer sistema de propulsão teria uma vida útil bem mais curta, por causa da corrosão gerada pelo contato direto com a água.

Como o seu próprio nome diz, a função do anodo é se sacrificar pelo restante do barco: ele se deixa corroer no lugar de peças mais valiosas, graças a um fenômeno físico-químico chamado “galvanização”, uma espécie de “reação” que ocorre entre dois metais dentro d’água. Como o anodo é feito de um metal mais “fraco”, no caso o zinco, ele corrói no lugar do outro material com o qual estiver em contato direto.

É, portanto, um mártir. Uma espécie de boi de piranha náutico. E fundamental em qualquer barco. Até os veleiros precisam dele, pois, no caso de falta de aterramento do mastro (que quase sempre é de metal), a oxidação pode se estender a outras ferragens, como os guarda-mancebos e as gaiutas. Para evitar isso, é preciso que mesmo as partes metálicas “secas” estejam conectadas a uma placa de metal no fundo do casco e esta a um anodo.

A rigor, a durabilidade do anodo depende do tempo em que o barco ficar na água. Mas, em rios e represas de água doce, a velocidade da corrosão dele é mais lenta do que no mar. De qualquer forma, quando a corrosão atingir a metade do anodo, sua capacidade de proteção começará a diminuir drasticamente — e será a hora de trocá-lo por um novo.

Na média, o anodo deve ser verificado a cada seis meses e trocado uma vez por ano — ou quando a corrosão atingir 60% de sua área. Mas não é nada que exija um grande investimento, já que um anodo custa pouco. Mas, atenção: o anodo jamais deve ser pintado, porque a tinta impedirá a galvanização deste poderoso combatente da oxidação e que só existe para enferrujar mesmo.

“Se a oxidação já corroeu 60% do anodo do motor, é hora de trocá-lo por um novo. Se não, a ferrugem tomará conta do barco inteiro”

A dica de um especialista:

Qualquer supermercado tem a solução mais simples para a corrosão no aço inox. É o que ensina o mecânico Jorge Paragon: “Para tirar manchas dos cunhos de aço inox, a maneira mais simples e fácil é com Semorin, um produto à base de ácido oxálico, encontrado em qualquer supermercado. A aplicação não requer nenhuma técnica especial, exceto luvas e óculos — e dá para fazer o serviço em poucos minutos”.

“Pingue algumas gotas do produto e espalhe com uma esponja macia (não use nada áspero, porque pode manchar ou riscar o inox), esfregando até cobrir toda a área.”, continua o especialista. “O efeito é imediato. Em seguida, lave com água e sabão. Pronto. Mas, se a mancha não sair, repita o processo. Depois, com as peças já limpas, use cera náutica (a mesma usada para polir cascos), porque ela servirá para conservar o brilho e proteger contra a corrosão”.

E ele ainda dá alternativas: “Em vez do Semorin, pode-se, também, usar limpadores para metais cromados (bem mais caros e só encontrados em lojas náuticas), ou massa de polir número 2, misturada com sabão de coco. Ambos fazem o mesmo efeito. Mas, com Semorin, é bem mais fácil, rápido e barato”.

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