No Canal da Joatinga, no Rio, os barcos enfrentam uma barra pra lá de traiçoeira. Se vacilar, vira!

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Fotos Victor Aune, da Aune Filmes

Vai virar, vai virar!”, gritam alguns pescadores, posicionados em cima do quebra-mar da Barra, na zona oeste do Rio de Janeiro, alertando o comandante de uma lancha de 21 pés — que tentava alcançar o mar, vindo do Canal da Joatinga — para o risco iminente de capotamento, por insistir em cruzar a barra a qualquer preço.

Colhida por ondas de dois metros de altura, que explodiam contra o casco e lambiam o convés, num vaivém constante, a embarcação girava na arrebentação em torno do próprio eixo, em piruetas de 360º. A essa altura, a água já havia invadido o cockpit deixando todos os tripulantes molhados e amedrontados.

Se as ondas empurrassem a lancha para a direita, o choque contra o quebra-mar seria inevitável. Felizmente, depois de resistir à borrasca por 15 minutos, o tal comandante conseguiu apontar a proa em direção às ondas, acelerar firme e romper a barreira de água salgada. Uma barreira que desafia os donos de barcos diariamente na embocadura do Canal da Joatinga, também conhecido como Canal de Marapendi, Canal da Barra ou simplesmente “barra do medo”.

Localizada na altura do Posto 1 da Barra da Tijuca, essa embocadura é um lugar muito bonito. O perigo, porém, rivaliza com as belezas. “Já testemunhei muitos acidentes aqui, envolvendo lanchas e jets”, conta Victor Aune, que há 30 anos mora em uma casa debruçada sobre o canal, praticamente sobre a barra. “O verão é a época mais perigosa, porque o mar está muito calmo boa parte do tempo, com muito sol, e de repente entra uma tempestade e fica o caos”, explica esse, digamos, sentinela do lugar. “Mas a passagem exige cuidados o ano inteiro”, alerta.

O canal é muito dinâmico. Quando chove, aumenta o fluxo de água de dentro para fora do canal. Já quando a lua está cheia, aumenta o fluxo do mar para o canal. Com isso, os bancos de areia mudam muito de lugar

O aviso vale para a hora de entrar no canal, vindo do mar, mas sobretudo para a saída, que é quando efetivamente o bicho pega. “Na maré baixa, quando o canal está vazando, a água que sai mede forças com o mar, que está entrando; então, mesmo num dia calmo, tem ondas; e esse fluxo é perigoso, pois enquanto você está esperando na boca para sair, o canal está te empurrando para fora”, explica Victor, dono de uma lancha de 22 pés, que transita frequentemente pelo canal.

Entre os acidentes mais graves que testemunhou, Victor lembra de um choque entre dois barcos, que aconteceu no fim do ano passado, ambos pertencentes a uma empresa de mergulho. “Essa empresa já ficou conhecida por protagonizar acidentes no canal, por tentar sair de qualquer jeito, a qualquer momento. Vira e mexe eles afundam um barco”, denuncia.

No acidente do ano passado, os mergulhadores saíram a bordo de dois barcos, um atrás do outro. Chegando na barra, enquanto o de trás acelerava, o da frente viu uma onda e reduziu a velocidade bruscamente. O barco de trás bateu no da frente. Como o que está ruim pode sempre piorar, com o choque a âncora do barco de trás caiu na água e o barco ficou fundeado no meio da arrebentação. “Então, uma pessoa tentou tirar a âncora e teve o braço esmagado entre o cabo e o casco.

Logo depois, o piloto tentou dar um giro e o cabo enroscou no hélice, e o motor parou. Ficaram seis pessoas dentro da arrebentação, uma delas com o braço esmagado. Aí o canal fez o trabalho dele: jogou o barco contra as pedras. Deu perda total. E o barco não tinha seguro. Era uma lancha de 37 pés!”, testemunhou Victor. Outra vítima recente da arrebentação na barra foi um pescador amador, cujo barco ficou sem motor (deu pane) na saída do canal. A lancha dele foi jogada contra as pedras do quebra-mar. Foram necessários dois caminhões, equipados com braços mecânicos, para tirá-la de lá.

Em certos momentos, o canal parece um lago, de tão tranquilo. Em muitos outros, a beleza rivaliza com o perigo. Donos das lanchas e dos jets que trafegam por ali precisam aprender a esperar a hora certa de entrar e sair

O quebra-mar foi colocado na “barra do medo” nos anos 1950. Mas esse molhe não é suficiente para rechaçar o ímpeto das ondas, impedindo a sua entrada no canal. A solução para isso seria alongá-lo de 60 metros para 180 metros. Até existe um projeto nesse sentido, mas nunca foi tirado do papel. Enquanto a prefeitura não toca a obra, os donos das lanchas e dos jets que trafegam por ali precisam aprender a esperar a hora certa de entrar e sair.

“Em certos momentos, isso aqui parece um lago, de tão tranquilo. Se você conversar com as pessoas que moram aqui, e têm barco, todas elas vão dizer que entram e saem numa boa. Por experiência, sabemos quando dá para sair, quando é perigoso e quando é mais prudente e inteligente esperar. Mas aí vêm os apressadinhos, ou desatentos, e fazem bobagem”, alerta esse privilegiado observador.

O problema, segundo ele, é que, nos últimos anos, o canal ganhou alguns clubes, marinas e até um restaurante que alugam jets e lanchas e organizam passeios para as Ilhas Tijucas, que ficam a cinco minutos do canal. Além disso, a prefeitura construiu dois píeres públicos. Com isso, aumentou muito o fluxo de barcos. “Poucos anos atrás, não havia mais do que 50 jets por aqui. Hoje, existem 500! Muita gente nova num lugar relativamente perigoso, se não for respeitado. Essa necessidade de sair a qualquer custo aumenta o risco de acidentes”, avalia o sentinela da barra.

Um problema adicional é a formação de bancos de areia. O canal é muito dinâmico: maré sobe, maré desce; maré sobe, maré desce. Quando chove, aumenta o fluxo de água de dentro para fora do canal. Já quando a lua está cheia, aumenta o fluxo do mar para o canal. Com isso, os bancos de areia mudam muito de lugar, a ponto de, muitas vezes, restar apenas 30 centímetros de água na saída do canal. Nessas condições, teoricamente não dá para passar. A não ser que o barco venha acelerado, bata no banco de areia e salte. “O problema dos bancos de areia é que a onda que tinha um metro de altura começa a ficar com dois metros”, adverte Victor.

O verão é a época mais perigosa, porque o mar está muito calmo boa parte do tempo, com muito sol, e de repente entra uma tempestade e vira o caos

A dificuldade é tanta que mesmo a Marinha evita passar pela barra: a Capitania dos Portos do Rio fiscaliza o Joatinga/Marapendi regularmente, mas prefere manter botes do lado do mar e jets dentro do canal. Para não errar na hora de entrar no canal, segundo Victor, o truque é contar a série de ondas. “Se não contar direito e acabar no meio de uma vaga, você não pode passá-la, sob o risco de a lancha embicar. Como é raso, o bico bate no fundo e o motor passa por cima da cabeça das pessoas. Já houve alguns acidentes fatais aqui por causa disso”, adverte.

Já na hora de trocar o canal pelo mar o segredo é acompanhar as marés. “Se a maré estiver baixa e a ondulação, alta, não dá para sair. A ondulação deve estar, no máximo, com 1,5 metro. Acima disso, não há chance de sair. Já se a ondulação estiver com 1,5 metro e a maré, alta, dá para sair”, ensina Victor. Lembrando que a maré muda duas vezes por dia. De manhã, ela atrasa uma hora por dia e varia de 12 em 12 horas. Então, de manhã pode começar vazando, no meio do dia estar enchendo e à noite voltando a vazar. Conforme a lua vai mudando, isso se inverte. “Assim, no início do mês a gente tem vazante durante o dia e no fim do mês vazante durante a noite”, ele explica.

A entrada do canal, entre o quebra-mar e o costão de pedras, tem apenas pouco mais de 50 metros. Quando o mar está agitado, o espaço para cruzá-la fica ainda mais restrito

O Canal da Joatinga (não confundir com a Ponta da Juatinga, o nosso “cabo das tormentas”, em Paraty, no meio do caminho entre Ubatuba e Angra dos Reis) é bem extenso. Vai da Barra da Tijuca até Angra. Mas boa parte dele não é navegável. Só recebe o tráfego dos barcos num trecho de cerca de 20 quilômetros, até a altura do Recreio dos Bandeirantes.

Calado não é problema. Assim, seria possível a navegação de barcos de até 70 pés. Porém, existe uma ponte que limita a passagem, no quilômetro dois do canal, por ser muito baixa: tem 1,50 metro de altura. “Mesmo com a minha lancha, uma 22 pés, tenho de desmontar o cockpit para passar sob ela”, conta Victor. “Em compensação, se não fosse por esse detalhe, teríamos barcos enormes sofrendo na entrada ou na saída do canal”, conforta.

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