A história da lancha que Ayrton Senna projetou e construiu, mas nunca navegou

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Embarcamos na A.S. Atalanta, uma lancha única feita para um cliente mais que especial: o piloto Ayrton Senna, que ajudou o projetista a desenhar. Tragicamente, o tricampeão teve a vida interrompida um dia depois de o barco ser entregue em sua casa, em Angra dos Reis

Com toques do tricampeão de F1 Ayrton Senna, o projeto da lancha Senna 417 (de 41,7 pés), iniciado em 1992, ficou pronto em 1994. Ayrton Senna, porém, jamais chegou a ver a lancha em ação. Isso porque a primeira unidade construída pelo estaleiro Fast especialmente para ele só atracou no píer de sua casa, em Angra dos Reis, na manhã do dia 30 de abril de 1994, um sábado.

Para os fãs do piloto, gênio das pistas, essa data já diz tudo: era a véspera do trágico acidente do GP de San Marino, no circuito italiano de Ímola — nosso herói das manhãs de domingo, então com 34 anos, pilotava sua Williams-Renault quando se chocou contra o muro de cimento da curva de Tamburello, na sétima volta.

Por viver viajando, por causa do intenso calendário das corridas, Ayrton deixou a irmã, Viviane Senna, encarregada de acompanhar de perto a construção da lancha. Mas eles trocavam ideias por telefone a respeito de certos detalhes, como as cores a serem aplicadas, obrigatoriamente alegres, e a escolha dos tecidos, com estampas de motivos marítimos.

O nome do barco, A.S. Atalanta, foi escolhido pelo próprio piloto: o A.S. são as iniciais de Ayrton Senna, é claro, enquanto o Atalanta (inspirado na mitologia grega) se refere a uma guerreira muito veloz que somente se casaria com um homem que a derrotasse em uma corrida. Já a decoração ficou a cargo de Ana Cláudia Moreno, especialista em projetos náuticos e decoração de barcos.

Viviane providenciou também a construção de uma rampa na casa de Angra, para que a lancha pudesse ser guardada em terreno seco. Ayrton queria deixar tudo pronto para estrear a A.S. Atalanta no verão de 1994/95, quando estaria de férias na Fórmula 1.

Vinte e seis anos depois, ninguém conseguiu esquecer aquela manhã de domingo. Já a lancha de 41,7 pés praticamente saiu de cena. Registrada em nome da Ayrton Senna Promoções e Empreendimentos Ltda., a A.S. Atalanta permaneceu com a família do piloto até 2005, quando foi vendida a Sergio Assunção, da Infláveis Náutika, que por sua vez a repassou ao empresário Milton Minello, sócio do Iate Clube de Santos, que passou a navegar com ela pela região do Guarujá.

À época, impulsionada por dois motores Caterpillar 3208, de 435 hp cada, alcançou 32 nós (60 km/h) de velocidade máxima, uma boa marca para um barco que desloca 12 toneladas. Entretanto, um dos motores apresentou um problema. Milton aproveitou para substituí-los por dois modelos Yanmar (reduzindo o peso da embarcação e melhorando ainda mais um pouco sua performance). Em seguida, o barco foi vendido para Ademar De Gerone.

A lancha estava com 450 horas de navegação e, com vários pequenos problemas internos, exigindo uma boa reforma, quando o atual proprietário, Wilson Ricardo Benatti, de 42 anos, entrou na história, em 2016. “Comprei a embarcação para que meus pais, Wilson e Salete, e toda minha família pudessem curtir momentos especiais juntos”, recorda.

Wilson Ricardo Benatti: o atual dono da A.S. Atalanta

“Meu pai sempre foi fã do Senna. Me acordava para assistir as corridas e eu sempre amei a Fórmula 1. O Senna foi o maior de todos os tempos. Tenho várias fotos dele, inclusive que tirei no box enquanto ele observava sua Mclaren. Não perdia uma corrida em Interlagos”, conta Wilson, que mora em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, e nunca teve uma embarcação antes da A.S. Atalanta.

“Nossa família estava procurando uma lancha na faixa dos 42 pés para se iniciar no meio náutico. Não podia imaginar que nosso primeiro barco pudesse ser uma lancha feita especialmente para o Senna. Uma autêntica preciosidade”, diz ele, sem esconder o entusiasmo.

Antes de levá-la de volta à água, o que aconteceu no réveillon de 2017, em Angra dos Reis, Wilson deu uma geral no barco. “Troquei quase tudo: elétrica, hidráulica, os acabamentos de estofados, os carpetes, etc. Em resumo, eu fiz uma restauração caprichada, que custou 50% do valor que paguei na hora da compra. Só não mexi nos motores, que já haviam sido trocados por dois Yanmar de 480 hp”, lembra ele, que atualmente mantém a lancha baseada na Marina Astúrias, no Guarujá.

Além disso, a A.S. Atalanta ganhou no nome gravado no casco um adesivo com o duplo S do Senna, além de um capacete homologado pelo Instituto Ayrton Senna igualzinho ao do piloto, que ocupa lugar de honra no salão principal.

Se valeu o investimento? “Compensou, com juros e correção. A A.S. Atalanta é uma lancha única”, exalta Wilson, que foi pai pela segunda vez em dezembro de 2019 e por isso não está navegando tanto quanto gostaria atualmente. E também por conta do isolamento social por conta do Covid-19.

NÁUTICA testou a lancha em 1994

Projetada pelo norte-americano Tom Fexas, a A.S. Atalanta é uma lancha cabinada com flybridge, que leva 16 pessoas durante o dia e acomoda quatro em pernoite, em dois camarotes. Seu casco, porém, é do tipo esportivo, feita não com madeira revestida com fiberglass, mas sim com moldes únicos injetados com poliuretano.

Muito mais leve e resistente (imagine fazer uma prancha de surf mas com 42 pés de comprimento), executado por uma técnica que apenas hoje começa a ser utilizada pelos melhores estaleiros. O que demonstra a capacidade de visão, e de boa performance, uma exigência do piloto tricampeão mundial.

Tem linhas mais aerodinâmicas e limpas, sem acessórios que poderiam comprometer a estética. O guarda-mancebo, por exemplo, é baixo e se limita à proa do barco, o que facilita a movimentação em torno da casaria, embora, em contrapartida, não ofereça segurança para uma criança que se desloque até a proa.

A ideia do estaleiro Fast, depois de entregar a lancha de Ayrton Senna, era dar início à construção do modelo em série, em uma parceria com a Senna Promoções e Empreendimentos, tocada pelo irmão de Ayrton, Leonardo Senna, numa tentativa de expandir os negócios da família rumo ao mercado náutico.

Com a morte do piloto, o projeto foi abortado. Porém, outro estaleiro (a Cobra Náutica) adquiriu os moldes da Senna 417 e construiu outras quatro unidades, que até hoje circulam por nossas águas. Nenhuma com o valor histórico da A.S. Atalanta, a última paixão de Ayrton Senna.

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